Em Destaque

julho 26th, 2017

A Datilógrafa

More articles by »
Written by: Flávio Junio
MADEMOISELLE POPULAIRE

Os EUA está para os negócios, mas a França está para os romances– o discurso que pode soar um tanto piegas hoje saiu da boca de um dos personagens de A  Datilógrafa, longa francês inspirado nas saudosas comédias românticas do anos cinquenta que encantavam meio mundo,  que encontra refúgio de seu roteiro carregado de clichês no carisma de seus protagonistas e no clima nostálgico que remete às antigas produções estreladas por Doris Day , Cary Grant e Audrey Hepburn.

Dirigido por Régis Roinsard, em sua estreia em longas metragens, o filme narra a história de uma jovem na França do final dos anos cinquenta que mora com o pai em um pequeno vilarejo e que sonha em sair daquela vida monótona e sem grandes possibilidades. Disposta a conseguir um emprego como secretária, a cândida Rose (Déborah François) enfrenta dezenas de concorrentes até garantir o posto no escritório do ranzinza Louis (Romain Duris) graças ao seu talento na datilografia, nem tanto por habilidade, mas devido a velocidade com que consegue digitar utilizando apenas dois dedos. Impressionado com o dom da moça, Louis a convence a deixá-lo inscrevê-la em um torneio local de datilografia, ambicionando em seguida competições de alcance mundial. Como não poderia deixar de ser, com o tempo e a convivência os dois acabam se envolvendo romanticamente, mesmo com o temor de que isso possa atrapalhar Rose em seu intuito de angariar títulos.

O charme conferido a produção deve-se principalmente ao excelente trabalho da direção de arte, desde o refinado acabamento nos interiores dos cenários onde os protagonistas travam grande parte dos diálogos – do escritório à casa de Louis – até os ambientes onde as disputas entre as datilografas eram travadas (com uma movimentação de pessoas ao melhor estilo MMA). Bem como a fotografia de Guillaume Schiffman, alternando entre o monocolor e o berrante contribuindo assim para que a trama mergulhasse totalmente nos anos cinquenta. Também merece crédito o trabalho da figurinista Charlotte David , com peças que variam do sóbrio ao glamouroso, deixando em determinado momento a loira Déborah François quase idêntica a Grace Kelly (o  maior ícone da moda e elegância dos anos cinquenta).

Em contrapartida aos aparatos técnicos, o ponto fraco de A Datilógrafa está mesmo em seu roteiro , sendo Roinsard co-autor,  que devido a um N número de amarras em sua  estrutura não permitiu nenhum toque mais ousado na narrativa.  Em suma, não há um drama consistente que segure a trama até o final. O envolvimento entre Louis e Rose, por exemplo, é permeado de impossibilidades, do nível social à relação chefia e chefiado, chegando ao famigerado machismo, mas nenhuma delas ganha real desenvolvimento a ponto de servir de arco dramático plausível. Assim sendo, caminha-se para um final bastante previsível. No entanto é necessário destacar o excelente trabalho de Roman Duris e Débora Francois que têm uma ótima química. Duris foi esperto ao construir Louis como alguém que facilmente consegue despertar certa repulsa do espectador, mas que naturalmente apresenta um timming cômico bem particular. Já Francois é luminosa e arrebatadora, na transição de sua personagem do anonimato para a fama a atriz transmite tamanha veracidade em suas expressões que é quase impossível não reconhecer nela uma  futura grande estrela.

Não fosse os percalços citados, A Datilógrafa possuía vários elementos suficientes que poderiam colocá-la em um lugar cativo na lista de melhores comédias francesas dos últimos tempos , porém nem mesmo bons recursos técnicos ou bons atores podem resultar em um bom filme quando o texto sofre de forte anemia aguda.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




One Comment


  1. Que filme diferente.
    Eu tenho um certo pé atrás com filme francês.

    Histórias, estórias e outras polêmicas
    http://www.cchamun.blogspot.com.br
    Aparece lá, tem posts novos.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *