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julho 16th, 2018

A Fonte das Mulheres

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Written by: Flávio Junio
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Anos após os ataques do 11 de Setembro, a cultura muçulmana, com seus costumes e tradições, ainda tem despertado a curiosidade não somente da parte ocidental do mundo — ganhando presença cativa nos festivais internacionais através dos longas-metragens que ilustram os diversos problemas sociais das nações seguidoras do alcorão, mas também de alguns insurgentes islâmicos que questionam certas diretrizes que ditam os comportamentos e a posição feminina na sociedade. Se o egípcio Cairo 678, de Mohamed Diab, retratava com propriedade os assédios sexuais no Egito, enquadrando-se como filme denúncia — A Fonte das Mulheres, coprodução belga, francesa e italiana, não se vende como tal, entretanto é uma interessante exposição da ditadura machista e manipuladora em meio a miséria, a seca e a corrupção gritante por parte dos mais instruídos.

A trama dirigida por Radu Mihaileanu (O Concerto) se passa em um vilarejo localizado entre o Norte da África e o Oriente Médio e é transcorrida nos tempos atuais. Sem água corrente e energia elétrica, as mulheres da região — entre elas gestantes — logo pela manhã são encarregadas de abastecerem a vila, através de uma fonte nas montanhas, carregando um arado nas costas que sustenta um balde a cada extremidade. Devido ao exaustivo esforço, o número de abortos é bastante considerável, o que estimula Leila (Leila Bekhi) a liderar uma rebelião com o apoio de suas iguais, defendendo uma greve de amor, para que os homens também se disponibilizem para exercer essa obrigação diária. Única mulher alfabetizada, Leila é vista na cidade como o pivô de todo o motim, até mesmo pela sogra (Hiam Abbas) – que se opõe veementemente à batalha decretada pela nora, mas não pelo marido Sami (Salen Bakri) – que em grande parte da projeção demonstra estar ao lado dela. A camada mais velha entre os homens e a força religiosa local colocam-se contrários ao alarde provocado, muitos deles respondendo violentamente às recusas de suas parceiras para os atos sexuais, defendendo que tais atitudes de suas esposas, mães e irmãs são um atentado aos preceitos de Alá. Temendo que a situação saia do controle, os cabeças da cidade orquestram inúmeros planos para deter as rebeldes, esquecendo-se que eles também são vítimas do descaso e da exploração.

O abandono, a disputa ferrenha entre os sexos, a ilusão amorosa, a ambição da juventude – essa pluralidade de temas é recorrente no drama de Mihaileanu, que aqui competentemente se prova um excelente condutor de casos e acasos. Não há exageros ou pressa excessiva para concluir a história,  cada ato é seguido por outro com lógica e coerência.

Apesar da dramaticidade e do toque quase documental, o filme ousa ao assumir uma veia humorística e musical, que se não apropriadamente enquadrada poderia prejudicar o resultado geral, mas que no final torna a produção ainda mais cativante. Dessa forma, quando nos deparamos com a veterana atriz Biyouna (intérprete de Velho Fuzil, a mais velha entre as rebeldes) em cima de um burro e falando ao celular (uma abordagem sarcástica de um choque tecnológico) ou com os manifestos cantados pelos homens ou pelas mulheres do povoado, já estamos entregues ao formidável texto roteirizado por Mihaileanu, parte dele remetendo à peça grega Lisístrata, de Aristófanes, que narra as desventuras de uma ateniense que decreta greve de sexo em meio ao violento conflito entre Atenas e Esparta.

Sem qualquer ar de super produção, presenças estelares ou cenografia com aparatos sofisticados, A Fonte das Mulheres ganha inúmeros pontos pela simplicidade com que lida com algumas questões interpessoais, apresentando-se quase como uma crônica encenada. A propósito — Leyla, sua sogra, a apaixonada Esmeralda (Hafsia Herzi), poderiam muito bem ser egressas dos contos de Nelson Rodrigues. Seus dramas, a sensualidade (reprimida ou não) latente e o modo como enxergam o mundo ao redor, assemelham-se aos das variadas personagens presentes nas obras do dramaturgo pernambucano – enchendo a historia de graça e leveza. Outro ponto alto é a trilha-sonora , repleta de acordes africanos, somados aos cânticos entoados pelo afinado elenco.

Uma das boas surpresas da edição 2011 de Cannes,  a produção  além de ser um atual manifesto, é uma  prazerosa jornada por uma terra onde as pessoas são humanas e insensatas na medida certa — despertando no espectador muito fascínio.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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