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setembro 20th, 2017

A Garota no Trem

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Written by: Flávio Junio
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Em 2014, David Fincher trouxe para a tela a adaptação de um trilher que primava pela inteligência somada a sutileza das situações expressas na tela. Garota Exemplar, baseado na obra de Gillian Flynn, trazia a bela Rosamund Pike vivendo uma mulher acima de qualquer suspeita, com seu marido, Ben Affleck, como principal alvo de uma investigação de um possível homicídio. Já era bem previsível que a ótima repercussão do longa de Fincher originaria uma série de produções que beberiam na mesma fonte, apostando numa fórmula irresistível de suspense, crime e mistério. A Garota do Trem, de Tate Taylor, é uma dessas claras inspirações, entretanto está bem aquém do desejado.

O elenco é liderado por três mulheres, todas vivenciando um drama pessoal — e unidas por alguns elos. Rachel (Emily Blunt) é uma mulher que sofre as consequências do divórcio, motivado dentre outras coisas por sua infertilidade, entregando-se ao álcool como válvula de escape. Dividindo a casa com uma amiga, seu cotidiano é resumido por suas viagens de trem do subúrbio de Westchester para Manhattan — sempre o mesmo trajeto — já que foi demitida do emprego por chegar frequentemente alcoolizada. Entre um ponto e outro, a personagem observa dois casais que aparentemente levam a vida que sempre quis pra ela. Um deles é formado por Tom (Justin Theroux) e Anna Watson (Rebecca Ferguson). Não haveria nada demais nesse modo voyeurista se o citado casal não fosse formado justamente por seu ex-marido e pela outrora amante, que conseguiu dar a ele um tão sonhado filho. Anna faz o estilo bela, recatada e do lar — tão distinto de sua vida anterior ao casamento — como revela quando assume a narração. O outro par observado por Rachel é Megan (Halley Bennett, uma quase sósia de Jennifer Lawrence) e Scott Hipwell (Luke Evans). Jovens e belos, os Hipwell parecem egressos daqueles comerciais de TV que vendem uma ideia de família feliz e saudável. Ela, que mora a alguns quarteirões de Tom e Anna, trabalha como babá do bebê dos Watsons — e guarda uma melancolia quase contida. A miserável rotina de Rachel só é quebrada quando um suposto crime pode ter acontecido, e sua participação nele talvez tenha sido ativa.

Paula Hawkis, autora do livro que originou o filme, em entrevistas declarou que quando Garota Exemplar ganhou a mídia literária (e depois cinematográfica) já concebia seu best-seller — numa tentativa de afastar a imprensão de cópia deslavada. Porém, mesmo tendo um clima bem semelhante, há tantos furos no roteiro escrito por Erin Cressida Wilson que o deprecia diante agilidade da trama de Fincher.

Rachel pouco a pouco vai atingindo fortes niveis de autodestruição — que de forma gradativa afetam sua sanidade. A obsessão pela atual vida do marido em seu antigo lar é plausível, visto a tentativa de permanecerem juntos até a decisão pelo divórcio. Além disso, Anna é para Tom a mulher que Rachel nunca conseguiu ser — submissa ao extremo. Por outro lado, o roteiro não deixa claro do porquê Megan é espiada com tanto fascínio, sabendo que as duas não possuiam nenhuma ligação de amizade ou aparente contato. Em tempo, somos apresentados a três pontos de vistas distintos — com as protagonistas enfrentando a dor de alguma perda e/ou pressionadas  por não serem boas o bastante para atenderem as exigências de seus pares, a maioria apresentados de modo apático, mas o que poderia ser uma premissa interessante esvai-se na transição dos atos, levando a trama para um desfeixo bem previsível. A sugestão ao invés do didático também seria um artifício que poderia contribuir para um maior envolvimento do público com a história, que se perde com momentos tolos, como as cenas de Megan com seu terapeuta (Edgar Ramirez) ou nas revelações da antiga colega de trabalho de Tom (uma desperdiçada Lisa Kudrow) sobre o caráter dele. 

O grande ponto forte de A Garota no Trem de fato é seu trio de atrizes, que trabalha com esforço a fim de conferir alguma dignidade à produção. Emily Blunt, Haley Bennett e Rebecca Ferguson dão, cada uma à sua maneira, o melhor delas — sendo Emily Blunt a mais exposta e famosa. Blunt faz uma ótima composição corporal vivendo alguém que vai perdendo o controle de seus atos e tenta passar uma imagem que não corresponde com a realidade. Apesar de fingir que está no comando — sua personagem vai entregando-se à fragilidade, mas não exatamente ganhando a simpatia da plateia — mesmo com tantos abusos.

Em suma, A Garota no Trem pode até ter grandes pretensões como cinema, mas o resultado não condiz com as expectativas. O que Fincher e Denis Villeneuve conseguiram transmitir com Garota Exemplar e Os Suspeitos, respectivamente, Tate Taylor até tentou — mas no final das contas ficou no meio do caminho e mais próximo de um daqueles telefilmes exaustivamente exibidos no Supercine na década de noventa. 


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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