RESENHAS

fevereiro 24th, 2019

A incrível história de Adaline

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Written by: Flávio Junio
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A busca pela juventude, a preservação da beleza num mundo onde o simples fato de ganhar alguns fios brancos nas madeixas ou marcas de expressão já nos posiciona de escanteio, em favorecimento a corpos viris, com plasticidade irretocável. Não à toa que as empresas produtoras de cosméticos, que “prometem” deter a velhice,  ganham bilhões todos os anos. O sensível A Incrível história de Adaline , de Lee Toland Krieger, trata dessa possibilidade de alcançar o rejuvenescimento , entretanto não encarado como uma dádiva milagrosa, mas uma maldição inexplicável, tornando seu detentor uma aberração para si mesmo.

A jovem Adaline Bowman (Blake Lively) nasceu em 1908,  e foi criada com todas as regalias a que tinha  direito. Aos 29 anos sofreu um grave acidente de carro, que quase lhe custou a vida, mas milagrosamente a personagem sobrevive e adquire a eternidade ( há uma curiosa e fictícia explicação científica), mantendo-se com a mesma aparência, jovem e bela, antes da quase morte fatal. Com o passar dos anos, Adaline vê grande parte de seus contemporâneos falecerem, muitos de forma natural, o que passa a ser visto com suspeitos olhares pelos os que a cercam. Temendo ter sua sina descoberta, e se transformar em material humano de pesquisas ou um fenômeno, ela torna-se uma transeunte, adotando uma nova identidade por cada um dos lugares para os quais foge. Apenas sua filha (a octogenária Ellen Burstyn) sabe dos segredos bem guardados da mãe, testemunha viva de diversos acontecimentos que marcaram a história do mundo, como a Segunda Guerra Mundial – que logicamente não chegaram a seu conhecimento através de livros ou relatos.

Difícil não comparar a trama, escrita pela dupla J.Mills Goodloe e Salvador Paskowitz, com a do longa O Curioso Caso de Benjamin Button. Na produção estrelada por Brad Pitt, a personagem título é gerada com uma deficiência que faz com  o que fluxo natural da vida tenha o sentido inverso, da aparência envelhecida à vigorosa juventude – enquanto seus  pares e companheiros vão desaparecendo ao longo dos anos. Utilizando recursos como flashbacks e uma narração em off, bem no tom era uma vez, Lee Toland Krieger tenta construir a estrutura narrativa como um conto — uma jornada envolta por mutáveis ambientações e nada duradouros relacionamentos. É coerente que o cineasta tenha optado em dar maior ênfase ao romance e a fuga da protagonista de envolvimentos mais profundos —  deixando de lado o teor retrospecto da história – entretanto nesse aspecto apenas a direção de arte e o figurino não foram suficientes para identificar claramente a movimentação elíptica. Mesmo que a premissa seja um tanto fantasiosa – a produção ganharia maiores pontos se houvesse uma maior interação entre a ficção e a realidade, não restringindo essa a fatos banais. O toque à la Nicholas Sparks até chega a emocionar, mas não cativa como deveria.

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Blake Lively é uma atriz com grandes recursos, e que demonstra sensibilidade no papel de uma mulher que é muito mais velha do que aparenta. Seu olhar melancólico e um timbre de voz suave e resignado geram uma ótima combinação para a personificação de alguém que muito já presenciou. Suas cenas com a veterana Ellen Burstyn são um deleite, em especial o diálogo onde discutem sobre a possibilidade da mais nova (Burstyn,num paradoxo bem humorado) ir para uma casa de repouso. Enquanto Harrison Ford e Kathy Baker como um casal prestes a comemorar quarenta anos de união dão mais credibilidade ao conjunto.

Não tão comovente e lírico quanto, por exemplo, Forrest Gump – O Contador de Histórias, outro exemplar cuja narrativa atravessa décadas acompanhando os passos do protagonista, A Incrível história de Adaline captura a atenção do espectador pela simplicidade. Um romance que pode até pecar pelas doses de açúcar, mas que se eleva ancorado pelo elenco luminoso, em especial a dupla Lively/Burstyn. Dentro do que propõe, a produção cumpre seu papel relativamente bem.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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