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julho 23rd, 2019

Agnus Dei

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Written by: Flávio Junio
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Quando uma jovem foi alvo de um estupro coletivo no Rio de Janeiro há poucos meses, grande parte da população condenou a atrocidade cometida contra a garota, que encontrou hostilidade até mesmo quando procurou a justiça. Surgiram uma série de discussões e uma parcela considerável tentou dividir responsabilidades, por meio das redes sociais, atribuindo uma dose de "culpa" à vítima por seu estilo de vida duvidoso. Opiniões à parte, mas e quando essas agressões e os abusos são destinados à figuras pertencentes a um contexto religioso, e famoso pelo voto de castidade que suas agentes ecolheram para si? É essa uma das discussões levantadas pela cineasta luxemburguesa Anne Fontaine no drama Agnus Dei.

Em 1945, já no fim da Segunda Guerra Mundial, tropas alemãs e russas invadem a Polônia deixando mortos por onde passam. Um dos alvos dos inimigos é um convento repleto de freiras que acabam atacadas e violentadas como forma de revanche do levante derrubado pelo movimento opositor. Os eventos além de gerarem traumas psicológicos e morais, trouxeram como "bônus" um elemento do qual essas mulheres abriram mão quando escolheram atender ao chamado divino: a possibilidade de tornarem-se mães. Sete freiras engravidam e por ordem da Madre Superiora (Agata Kulesza) são obrigadas a esconderem a gravidez do mundo externo até o nascimento, pois após darem à luz serão separadas de seus filhos, encaminhados aos parentes mais próximos.

O divisor de águas na vida das religiosas é  Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge) —  uma enfermeira francesa que passa a prestar seus serviços ao convento secretamente, logo depois de um primeiro contato. O grande choque para a personagem, independente e um tanto avançada para a concepção de pureza de suas novas pacientes, é adentrar-se num contexto onde encontra oposição à suas ideias e vivencias. Mathilde além de atéia é de origem comunista, e não tem medo de posicionar-se. 

Esse paradoxo entre o sagrado e o profano funciona perfeitamente na narrativa, mesmo sem grandes inovações. Anne Fontaine atuou como co-roteirista e preferiu uma abordagem mais direta e menos complexa nesse embate de comportamentos, e a abertura para uma maior aproximação entre Mathilde e as religiosas é fluída — mesmo influenciada pela urgência da situação. Enquanto a Madre Superiora é , a princípio, irredutível para contribuições externas (no vocabulário cristão "mundanas") — temendo o escárnio e a vergonha da comunidade circundante, a irmã Maria (Agata Buzek) é o equilíbrio. É a partir dela e de suas intermediações que surge a afeição das irmãs pela estranha. Por mais que o roteiro aborde com mais centralidade as consequências das ações dos algozes estrangeiros sobre aquelas mulheres, a maioria virgem e sem qualquer experiência com o sexo oposto, que terminaram grávidas, deixando de lado os impactos sobre as mais velhas e as demais que não se tornaram gestantes — há uma sinceridade singular. Ao lidar com a culpa, o temor de ir para o inferno, uma reprimida revolta, e a constante abgenação, Maria, Irena (Joanna Kulig), Anna (Katarzyna Dabrowska) e a própria Madre Superiora possuem personalidades pulsantes , e vez ou outra têm que lembrar a si mesmas do papel que exercem e da escolha que fizeram ao assumirem o hábito.

O principal trunfo do longa deve-se de fato às ótimas perfomances de suas atrizes. Lou de Laâge constroi com firmeza uma garota além de seu tempo. Dividindo-se entre o  trabalho na Cruz Vermelha e sua missão secreta, Mathilde é obrigada a inserir-se em um universo com o qual nunca esteve envolvida. O susto inicial pelo comportamento quase autoflagelante das freiras por um ato do qual foram claramente vítimas dá lugar à uma compreensão piedosa, maior do que achava que poderia sentir. São religiosas sim, figuras mais próximas do que é santo na visão de muitos, mas antes de tudo são mulheres como ela — sujeitas às mesmas questões e perigos. Enquanto isso, a austera líder de Kulesza não poderia ser resumida a uma vilã (tal classificação seria injusta com o brilhante trabalho da atriz , cuja personagem tenta proteger suas seguidoras de todas as formas, mesmo que para isso tenha que tomar atitudes extremas, em nome de um ser superior). Buzek, por sua vez, apresenta Maria como alguém que sabe de sua vocação, mas que não apagou de sua vida o passado quando era apenas uma garota com desejos e interesses — portanto, em tese, a mais madura do grupo.

Agnus Dei (O Cordeiro de Deus em latim) é um dos trabalhos mais pessoais de Fontaine. A cineasta conduz a história com sensibilidade, sem rotular-se como uma produção feminina.  O filme revela,  ato a ato, que abaixo dos negros hábitos de uma religiosa, há mulheres como tantas outras que temem os dissabores que todos os dias insistem em bater à porta. 


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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