Em Destaque

fevereiro 24th, 2019

Águas Rasas

More articles by »
Written by: Flávio Junio
Tags:,

Em 1975, Steven Spielberg levou milhões de espectadores aos cinemas por seu icônico longa sobre o embate da natureza versus o homem, Tubarão teve uma produção repleta de complicações, problemas técnicos entre as mais frequentes, mas no final das contas agradou o público — que só pela famosa trilha de John Williams até hoje sente frio na espinha. Com tamanho sucesso, era previsível que uma série de cópias viria a seguir, a maioria delas de qualidade duvidosa e muito próximas do trash movie. Águas Rasas, do espanhol Jaume Collet-Serra, bebe água na mesma fonte, entretanto possui atributos que o elevam sobre os demais.

Nancy (Blake Lively) é uma jovem estudante de medicina que, após o falecimento da mãe por um câncer, decide vivenciar o luto de um modo diferente. Viajar para a praia paradisíaca no México onde a matriarca descobriu que estava grávida dela. Nessa jornada solitária, a amiga desistiu na última hora, Nancy — adepta do surf, tenta entregar-se ao momento, desconectando-se das tribulações do dia a dia. Entretanto, o dia escolhido não seria nada tranquilo para a persongem, pois no fundo daquela imensidão azul esconde-se um tubarão branco que está na tocaia, à espera da aproximação de sua presa — que tenta a todo custo lutar pela sobrevivência.

O interessante na obra de Serra é o direcionamento até então não muito claro de sua história. Na transição de atos, parcela do  público pode apostar que o filme vá para a vertente utilizada por Robert Zemeckis em Náufrago, com um Tom Hanks sofrendo na pele as agruras de um local inóspito na companhia de uma bola de vôlei (aqui no caso seria uma gaivota). Suspeita-se que outro grupo enxergue uma nova versão de Mar Aberto, no qual Chris Kentis colocou um casal de mergulhadores perdido em alto mar, rodeado por tubarões. Em contrapartida, ambas as impressões não se confirmam com o decorrer da trama. Há um q de originalidade.    

Diferentemente do clássico de Spielberg e outros derivados, Aguas Rasas aposta no clima aterrador que envolve praticamente uma única personagem, não há uma série de mortes até chegar à figura central. A proposta de Serra em centrar as atenções apenas no duelo entre o animal e sua principal vítima tornou a trama mais concisa e — com as doses de tensão sob medida — aumentou uma paradoxal sensação claustrofóbica, com um predador deixando seu alimento no lugar certo, aguardando o melhor momento para devorá-lo. Mesmo com as caprichadas cenas de ataques, o cineasta acerta por nao apegar-se apenas no visualmente explícito, mas ganha pontos no subentendido ao confiar nas expressões de Lively  para transmitir ao público a apreensão do momento — em destaque uma cena onde a fúria e força do animal são visualizadas somente pelos olhares de Nancy.

Blake Lively é uma atriz que a cada novo trabalho tem demonstrado evolução. Lively fisica e dramaturgicamente prova ter fôlego para encarar uma protagonista que  tem presença suficiente para fazer com que a trama mova-se em torno dela — não sendo preterida e tendo as atenções roubadas pelo co-protagonista mêcanico, naturalmente a principal atração, sustentado pelos efeitos especiais. 

Águas Rasas não vai entrar para a história como um clássico do gênero, mas acerta no que se propõe e está muito acima da média.   


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




0 Comments


Be the first to comment!


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *