RESENHAS

agosto 23rd, 2019

Além da vida

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Written by: Flávio Junio

Clint Eastwood realmente é um mestre, sendo um dos poucos que conseguem tocar em qualquer assunto nos filmes que comandam. Da mulher que procura desesperadamente pelo filho em A Troca até o famoso presidente africano que mudou uma nação em Invictus – tudo pode servir como uma boa história nas mãos de um diretor como Eastwood. Além da Vida (Hereafter, no original) não é diferente.

Roteirizado por Peter Morgan, o mesmo de A Rainha e Front/NixonAlém da Vida narra alguns acontecimentos na vida de três pessoas e suas experiências com a morte ou uma quase-morte.

Inerentes a este assunto , estão sempre as questões de cunho religioso.

É fato que – independente de qual crença é seguida , o grande mistério sobre o que acontece logo após a morte mexe com o imaginário humano. Os cristãos têm uma visão, os espíritas outra – de igual modo os muçulmanos. Com base neste intrigante tema , Clint Eastwood explora essa curiosidade de uma forma bastante competente – como já era de se esperar- mas sem tomar partido.
Logo de ínicio nos é apresentado Marie ( Cecile de France) – correspondente francesa que – de férias na Tailândia – tem uma experiência de quase-morte quando a cidadezinha onde está é destruída por um Tsunami – uma cena tão surpreendente quanto a da bomba no filme A Senha (Swordfish). Por pouco não tendo morrido afogada , a personagem acaba salva por habitantes do lugar – ainda desfalecida consegue ter algumas visões do “outro lado”.

Na Inglaterra , conhecemos os gêmeos Marcus e Jase. Criados sozinhos pela mãe alcoólatra em um subúrbio – os irmãos acabam sendo separados quando um terrível acidente tira a vida de Jase. Marcus acaba tendo que enfrentar o grande desafio de viver sem o irmão e depois sem a mãe – de quem acaba retirado pelo conselho tutelar para viver com uma nova família.

Em São Francisco , George (Matt Damon) – um operário em torno de quarenta anos – reluta para voltar a sua antiga profissão como vidente. Bem sucedido anteriormente, lançado livros e virado matéria de reportagens, o protagonista resolveu abandonar as antigas práticas quando a grande repercussão começou a sufocá-lo.

Tal qual a linha de Alejandro González Iñárritu , Clint Eastwood adota aqui a prática de centrar a história na vida de pessoas que a príncipio não têm nenhuma ligação, mas que acabam unidas por um ponto em comum. A grande sacada do roteiro de Morgan, foi em permitir que os personagens principais não se tornassem unidimensionais. Cada um é apresentado ao espectador tendo suas facetas expostas por completo. Marie é uma profissional que gosta de ser desafiada , desafiar e de certo estar sempre no controle. Após sobreviver ao Tsunami , a jornalista não consegue assimilar o ocorrido e entender porque ainda está viva. Marcus – o gêmeo mais tímido e menos efuzivo – sente o peso da culpa pela morte de Jase, devido a uma determinada decisão deste em seu favor . George tem vergonha de seu passado, do qual nunca fala e que sempre volta à tona quando seu irmão incentiva pessoas a procurarem por ele para estabelecerem comunicação com o além. As transformações ocorridas na vida de cada um dos três são evidências de que lidar com algo tão acima do entendimento humano é deveras complexo e que fatalmente pode acabar se perdendo o auto-controle.


Clint Eastwood mais uma vez prova que o importante para ele não é lançar um filme ou mais a cada ano – mas contar uma história que possa fazer sentido para o espectador – nunca tentando subestimá-lo. Percebe-se que Eastwood jamais assume algo , o qual não enxergue um potencial verdadeiro capaz de comunicar ao público uma mensagem particular. Além da Vida foi executado exatamente com esta convicção, de se fazer entender pelos motivos certos. Do movimento da camêra durante as cenas do Tsunami, até as imagens pálidas do além , tudo foi minuciosamente pensado , para dar coerência a narrativa. Já a partir da abertura do filme , nas cenas em que a personagem de de Frace aparece debaixo dágua , o diretor utiliza uma peça – no caso um bicho de pelúcia branco – como um signo para o que vem a seguir.

Matt Damon , ao contrário de sua perfomance em Invictus – está ótimo como o ex-vidente opresso por ter um dom, o qual ele insiste chamar de maldição. O personagem sabe que devido a sua habilidade sempre será visto pelos outros com outros olhos. O interessante é que se de um lado George foge de tudo que lembre seu exercício como vidente – pelo outro isto ainda desperta algum fascínio nele – visto que é um grande admirador de Charles Dickens – romancista inglês – que dentre suas obras escreveu A Christmas Carol – um conto sobre um homem atormentado por fantasmas durante o Natal.

Cecile de France também confere enorme veracidade a seu papel. A atriz encarna Marie com bastante vigor, apresentando nuances pelos quais o espectador consegue acompanhar seu processo de mudanças, promovido pelo acidente.

Ao contrário de Amor Além da vida – outro filme que lida com o “outro lado” , a produção de Eastwood como dito não assume nenhum tipo de dogma. O roteiro sabiamente permite que o espectador tire suas conclusões ou que somente reflita sobre o que acabou de assistir. De certo que a intenção do diretor não foi de direcionar o público para uma linha de raciocíno já construída, mas impulsioná-lo para que se produza uma.

Há muitos diretores de prestígio em Hollywood, mas poucos são os que tem a capacidade nata de contar uma boa história como Clint Eastwood.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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