RESENHAS

agosto 26th, 2019

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

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Written by: Flávio Junio
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Entre os grandes predicados de um ator está a capacidade de se desvencilhar de um personagem assim que as cortinas do palco se cerram. Durante meses ou anos, tal personificação pode ser encarnada a ponto de provocar uma crise de identidade, onde não se sabe o que é real e o que é imaginação. Riggan Thomson, protagonista de Birdman  ou  (A Inesperada Virtude da Ignorância) novo longa do cineasta mexicano Alejandro G. Iñárritu– transita nessa linha tênue entre realidade e ficção, numa delirante jornada para resgatar sua carreira.

Depois de três filmes de sucesso interpretando o super-herói Birdman, Thomson (Michael Keaton) tenta provar  para  si mesmo que a recusa de um quarto longa da franquia não foi um erro, e embarca na produção de uma peça da Broadway, baseada em um texto do famoso dramaturgo Raymond Carver. Em busca do prestígio que ficou no passado, o personagem assume as rédeas do projeto, além de atuar, dirigir e roteirizar. Nessa incessante tentativa em colocar novamente seu nome no hall da fama, ele conta com seu cast formado pela neurótica Lesley (Naomi Watts) , a amante Laura (Andrea Riseborough) e o egocêntrico Mike (Edward Norton) – e é assessorado pelo agente Jake (Zach Galifianakis), seu braço direito. Paralelamente, os embates com sua filha e assistente Sam (Emma Stone), para quem sempre foi um pai ausente, acabam se tornando uma âncora que o prende, por pouco tempo, ao verídico —  mesmo que uma estranha voz persista em sua mente.

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Recorrendo aos já peculiares longos planos sequência, permitindo que  o espectador conheça mais intimamente o universo intrínseco de seus protagonistas,  Alejandro G. Iñárritu perscruta o mundo dos bastidores, trafegando pelos limiares de uma produção cercada por indivíduos tomados por manias e seguidores de duvidosos modelos de conduta. Roteirizado por Iñarritu, Nicolas Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo, o longa se desenrola através de neuroses  e da constante luta por aceitação. Um infantil ator quarentão, a loira que sonha em se tornar uma estrela da Broadway, o ex-astro e seus demônios interiores – vítimas (ou cúmplices) de um sistema onde se valoriza a aparência e a jovialidade. Confrontados com a cruel realidade, todos se conformam com a minguada evidência, em detrimento do absoluto ostracismo no cada vez mais restrito e elitizado circuito teatral.

Ao desconstruir arquétipos, a trama se firma à medida que a obsessão de Thomson ganha contornos e sua consciência (cujo lado insano é representado pela figura que lhe deu fama) tornar-se um guia. Cadenciado entre os enquadramentos amplos e closes ( esses restritos às cenas fora do palco) e travellings circulares (nas apresentações da peça) – Iñarritu mostra-se extremamente seguro e brilha na execução. Destaque também para a direção de arte, que oferece um perfeito contraste entre o vívido e iluminado tablado e os soturnos camarins, onde os artistas se desnudam na melancolia.

Michael Keaton entrega uma performance visceral como o sujeito que tenta a todo custo se desassociar do rótulo de celebridade (como chega a ser empregado com menosprezo por determinada personagem) e ser encarado como alguém com maiores possibilidades. De igual modo, eficientes os esforços de Edward Norton, Zach Galifianakis e Naomi Watts ao darem vida à figuras tão distintas daquelas que habitualmente interpretam.

Certa vez disse o rebelde James Dean: Para mim, atuar é a forma mais lógica para as neuroses das pessoas se manifestarem, nesta grande necessidade que todos temos de nos expressar. Birdman ou — A Inesperada Virtude da Ignorância, trilha por essa vertente – aonde uma inexorável aflição vai perdurando até a iminente eclosão.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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