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julho 26th, 2017

Capitão Phillips

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Written by: Flávio Junio
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Na atual cinematografia mundial, pouquíssimos são os cineastas que conseguem dosar e manter uma atmosfera onde ritmo e tensão possuem a mesma calibragem. Voo United 93  já havia deixado a impressão de que Paul Greengrass sabe como dialogar com o público, não exatamente apostando em técnicas maniqueístas de convencimento, mas transpondo para a tela uma história contada com tamanha convicção e vigor, a ponto de deixá-lo em dúvida entre o que é ficção e o que é realidade. Capitão Phillps, novo longa do cineasta, solidifica ainda mais este pensamento.

Baseado no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea, o longa acompanha o drama real vivido pelo marinheiro americano Richard Phillips, que em 2009 — conduzindo o cargueiro MV Maersk Alabama de Omã, uma das extremidades da Península Arábica, até o Quênia – teve o navio interceptado por piratas somalis em busca de dinheiro.

Experiente na função, Phillips (Tom Hanks) parte para mais uma de suas desventuras marítimas, após se despedir da mulher (Catherine Keener), em um diálogo intimista (salientado pelos planos fechados da câmera), como em qualquer dia comum. Paralelamente na Somália, Muse (Barkhad Abdi) é acionado pelos líderes da pirataria local para cometer novos furtos em embarcações cargueiras. Depois de montar sua tripulação, o capitão somali parte ao encontro do MV Maersk Alabama, um alvo certeiro. Mesmo detectada pelo radar a aproximação dos piratas e agindo preventivamente, o navio acaba invadido pelos quatro somalis remanescentes (os demais abortaram a missão). Com precisão, o roteiro escrito por Billy Ray vai se desenvolvendo, tornando aquele cenário um claustrofóbico ambiente tomado pela apreensão – que atinge maiores níveis no desenrolar da trama, quando em fuga em um baleeiro, Muse e seus companheiros fazem do capitão Phillips refém, movimentando uma mega operação de resgate.

Não tomando partido, nem tão pouco justificando as agressões cometidas por ambos os lados, Paul Greengrass conseguiu atrair o público para sua narrativa principalmente pela humanidade atribuída aos personagens. Pai de dois filhos adultos, bom marido e profissional exemplar, Richard Phillips é consciente de suas responsabilidades como líder, não se detendo na tentativa de proteger sua equipe. Entretanto, tais atributos não o impedem de lutar por sua própria vida e do medo de perdê-la. O magnetismo da ótima interpretação de Tom Hanks, deve-se em especial à maneira sincera como o ator conduz seu papel ao longo da projeção. Temendo em não rever sua família, e ao mesmo, tentando compreender as ações de seus captores, o personagem é persuasivo na maior parte do tempo, mas em N momentos age com insensatez. Na posição antagonista, Muse , Bilal (Barkhad Abdirahman); Najee (Faysal Ahmed) e Elmi (Mahat M. Ali )  abusam da força e a violência como munição para suas ações, muitas delas movidas pelas opções que o destino nunca lhes ofereceu. Moradores de uma aldeia oprimida pela exploração, todos encontraram no crime um meio de sobrevivência, seja ela física ou identitária. No estopim, impossível não destacar a energia com a qual os quatro atores somalis, todos principiantes, deram aos seus personagens, em especial Barhad Abdi ,um dos trunfos do filme. Os embates entre os dois capitães é mordaz, mas na troca de olhares existe certo respeito e cordialidade, muito embora no ato seguinte tudo se dissolva com mais doses de brutalidade.

Não condescendente, mas politizado – Capitão Phillips ilustra o choque entre dois mundos diferentes, um deles abastecido econômico e tecnologicamente, o outro envolto da miséria e abuso. Nesta jornada sociogeográfica todos buscam um modo para subsistir, cientes de  que algumas consequências brevemente chegarão.

 


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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