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novembro 19th, 2017

Conflito Armado

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Written by: Flávio Junio
La-Milagrosa-01

Conflito que tem sua origem na disputa pelo poder entre liberais, conservadores e socialistas que desde os anos quarenta lutam para transformar a Colômbia em um estado à suas respectivas maneiras, a Guerra Civil colombiana é dos principais problemas vividos em terras latino-americanas, e grupos de esquerda como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) são considerados como organizações terroristas dos EUA até a Europa. Como forma de se manterem atuantes, mobilizam seqüestros de civis, que podem ficar em cativeiro por meses ou até mesmo anos e desde os anos oitenta embarcam no mundo do narcotráfico. Assim sendo, a estreia no cinema do cineasta mexicano Rafael Lara, Conflito Armado(La Milagrosa) – produzida em 2008, pode ser descrita como uma espécie de cartão postal às avessas de nosso país vizinho.

Se passado na capital Bogotá, a trama gira em torno do sequestro de dois homens – um deles filho de um poderoso local – submetidos a condições subumanas durante o período em cativeiro. De família nobre, o jovem Eduardo Villareal (Antonio Merlano) é interceptado por militares durante uma viagem que fazia com o Julio (Santiago Reyes), o melhor amigo, e se torna o personagem principal de uma importante negociação entre o governo e os guerrilheiros das FARC. Imobilizados, os dois rapazes são levados para as selvas colombianas, onde vive grande parte do levante do movimento, mas no trajeto acabam atacados por um grupo de paramilitares, que além de abater alguns soldados do comando de Lagarto (Guillermo Ivan), tiram a vida de Julio. Agora solitário e exposto a uma sucessão de agressões físicas e psicológicas, Eduardo é obrigado a aprender lidar com o medo cruciante e com os efeitos devastadores que isso acarreta.

Apresentadas por Rafael Lara como organizações hierarquicamente bem estruturadas (onde cada componente do exército tem um papel importante, inclusive as soldados mulheres) as FARC são caracterizadas principalmente pela extrema violência com que lidam com seus opositores e pelo caráter radical com que respondem às decisões políticas do governo colombiano. Apesar de exibir cruamente as ações da guerrilha, o cineasta mantém-se imparcial apresentando o outro lado na vida dos homens, mulheres e até mesmo crianças que atuam diariamente no fogo cruzado. Convivendo com a miséria e o dissabor e paternais e calorosos em determinados momentos, contrastando com a postura que assumem quando estão na frente de batalha, todos de certa forma são vítimas das conseqüências – apenas o modo como retrucam a isso é o condenável da história. Aprisionado em uma espécie de celeiro, Eduardo quase é levado ao limite da loucura. Tendo dois prisioneiros como companhia, também já dando sinais de transtornos mentais, o personagem não se configura em nenhum momento ao posto de herói que assumirá as vestes de um Rambo ocasional, contabilizando homicídios entre os adversários. Neste sentido, está o grande mérito da atuação de Antonio Merlano, que contribuiu também com Rafael Lara no roteiro baseado em fatos reais. O protagonista do filme é uma figura comum, por assim dizer crível. Merlano é preciso ao estabelecer certas transformações no comportamento do personagem, que quadro a quadro vai se deteriorando à medida que o tempo passa – não se resumindo apenas às conseqüentes mudanças físicas garantidas pela maquiagem, mas se aprofundando na transição de nuances muito bem expostas nas pontuadas câmeras em plano fechado na face do ator.

Outro destaque importante para ser mencionado é o brilhante trabalho de Mauricio Vidal na fotografia, a textura das imagens reforça ainda mais o realismo das cenas – hora ambientando o espectador com os cenários característicos da geografia da Colômbia, como as selvas percorridas no filme num sol escaldante – hora fortalecendo o clima claustrofóbico do cativeiro.

Conflito Armado está para a Colômbia assim como estão Cidade de Deus e Tropa de Elite para o Brasil. São produções importantes, que fogem de qualquer viés partidário, expondo calamidades sociais que há anos estão incorporadas à fama que parte da América do Sul tem em cenário mundial. Mais do que a dramatização de um duelo entre poderosos e oprimidos é um clamor sufocado em meio a mais uma das tantas tragédias duradouras que assolam o mundo.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




6 Comments


  1. Alcino Forest

    Assisti esse filme ontem é muito bom passa longe dos besteirois americanos (que eu gosto também) é uma realidade horrível mostrada sem rodeios. Eu espero que as coisas por lá (na Colômbia) estejam melhores.


  2. PAOLA

    Seu site ficou muito bacana! A Vivian está muito orgulhosa……….Estamos divulgando para todos os nossos amigos…Parabéns!!!


  3. Vivian

    Irmão, parabéns seu site ficou bacana demais…..estamos muito orgulhosos….vamos a divulgação do site cineprise…com certeza

    Abraços

    Vivian


  4. Não tinha ouvido falar ainda neste filme, mas ele me parece ser bem interessante. A conferir!



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