RESENHAS

setembro 20th, 2017

Contágio

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Written by: Flávio Junio
CONTAGIO

Disse uma vez o poeta mexicano Octavio Paz: As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injetado o veneno do medo. Do medo da mudança.”
Neste mundo caótico, que serve de abrigo a bilhões de pessoas, o medo do desconhecido – daquilo que pode de uma hora para outra promover um desequilíbrio entre a humanidade – tirando seu celebrado autocontrole – possui várias facetas. O cinema desde os seus áureos tempos já retratou estes temores de n maneiras. De invasões alienígenas a uma iminente 3ª Guerra Mundial, chegando às bombas nucleares e um letal vírus que se espalha através do ar e vai dizimando milhares de civis. Esta última premissa a propósito, é a abordada por Steven Soderbergh em Contágio, seu longa mais recente.


O ponto de partida do filme está na persona de Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow), executiva americana que retorna aos EUA, depois de uma viagem de negócios para Hong Kong. Com os nada sutis sintomas de um resfriado, Emhoff volta para a casa e para o marido (Matt Damon) — entrando em estado de coma dias depois. Paralelamente em outras grandes metrópoles, indivíduos apresentam as mesmas reações — tosse seca, febre incessante e convulsões — culminando no óbito. O alarde sobre uma possível contaminação em massa movimenta os principais centros de saúde americanos, bem como a OMS, colocando seus profissionais na linha de frente no combate a epidemia. Desse grupo fazem parte o Dr. Ellis Cheever (Laurence Fishburne) e a Dr. Erin Mears (Kate Winslet) que ainda têm que lidar com as pressões governamentais e da mídia. No cerne da crise que desestabiliza a sociedade – que já nesta altura enfrenta a violência com os saques em supermercados e homicídios, também estão o jornalista Alan Krumwiede (Jude Law), que defende a tese de que um medicamento a base de forsythia seria a solução, e um pouco mais distante a epidemiologista Leonora Orantes (Marion Cotillard) que viaja para Hong Kong a fim de pesquisar a origem do vírus e descobrir a identidade do paciente zero.



Optando por uma narrativa convencional, mas muito bem estruturada, Sodenbergh conseguiu qualificar ainda mais sua produção, reunindo um extenso número de astros, no melhor estilo Robert Altman, enfrentando o grande risco do que isso acarreta. Não há duvidas de que o verdadeiro protagonista de Contágio, seja o vírus que – dentre outros meios, se espalha – por exemplo, por um simples toque na maçaneta de uma porta e depois no rosto – mas o mau desenvolvimento dos personagens pode sim levar tudo a perder, tornando a trama artificial. Em Traffic, também dirigido por Steven Sodenbergh, havia esta propabilidade, mas os elos entre os protagonistas mantiveram-se intactos durante toda a projeção, fazendo com que todos os elementos fossem essenciais. Já Alejandro González Iñárritu conseguiu ser bem sucedido retratando os efeitos de um mundo globalizado em Babel – que abrigava quatro tramas independentes que conduziam ao mesmo ponto.

Em Contágio, o risco foi maior – mas nem por isso afetou o conjunto. De igual maneira, o fato de ter descartado aquela figura heróica que passa todo o filme tentando enfrentar o desconhecido foi um grande acerto, pois se evitou o clichê já muito explorado, e que esteve presente no similar Epidemia de Wolfgang Petersen – com Dustin Hoffman no papel de salvador da pátria.

O ritmo impresso a trama – com a ajuda de uma trilha-sonora que aguçou o clima de apreensão – e o registro elíptico da proliferação da doença 134 dias depois de atingir o paciente zero – foi outro ponto que acabou sendo fundamental para a trama – dando dinamismo para a obra.

Depois de ter ganho o Oscar por Traffic, Sodenbergh fez alguns filmes irregulares ou de caráter controverso como o irregular Che, que narrava a trajetória do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara – com Contágio o cineasta volta de vez aos bons velhos tempos, provando que sua estatueta há exatos dez anos não foi um acidente.

 



About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




3 Comments


  1. Gilvan Martello

    Não gosto desse tipo de filme, Flávio, mas o elenco e a sua resenha deixaram-se interessado. Vou conferir. Abraços.


  2. Kamila

    Adorei o grande elenco que o Soderbergh reuniu para “Contágio”. Uma pena, somente, que algumas destas ótimas peças tenham sido mal aproveitadas, mas acho que este é o ônus a se pagar quando você reúne tantos atores bons juntos.

    Acho que o grande elemento de destaque deste filme acaba sendo o roteiro, que faz um retrato minucioso de todo o ciclo de uma pandemia. Gostei muito da forma como a história foi montada e da forma como este trabalho de montagem encontrou total sintonia com a trilha sonora, que acentua os momentos certos.

    “Contágio” é um ótimo filme!



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