RESENHAS

julho 26th, 2017

Dançando no escuro

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Written by: Flávio Junio
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Filme musical é aquele tipo de produção que frequentemente divide opiniões.
Alguns gostam muito do gênero por unir três formas de artes distintas: o cinema, a música e o teatro. Em contrapartida, há aqueles que não conseguem digerir as cenas onde o diálogo é interrompido inesperadamente, tornando a narrativa meio confusa, para a inserção de alguma canção interpretada pelos personagens.

“Dançando no escuro”, capitaneado pelo polêmico diretor Lars von Trier – é um drama musical que consegue agradar até mesmo o mais opositor deste gênero cinematográfico.

A produção se passa em 1964 e narra a história de Selma Jezková (a cantora Bjork), uma imigrante tcheka que se muda para os EUA com o filho. Operária de uma empresa de metalúrgia , Selma – tímida e retraída – só consegue estabelecer algum tipo de amizade com Kathy (Catherine Deuneve)- uma colega de trabalho – e Jeff (Peter Stormare) , um amigo que se torna admirador da protagonista.

Acometida por uma doença degenerativa que aos poucos afeta sua visão, a personagem de Bjork vai juntando centavo por centavo para conseguir pagar uma cirurgia para o filho, evitando assim que a criança sofra da mesma enfermidade da mãe.

Fã dos musicais hollywoodianos, Selma se integra a um grupo de teatro onde encena a produção “The Sound Of Music”, e é nesta fase que sua cegueira vai tendo progressão.
O sofrimento causado pela pobreza somado com seu estado de saúde, faz com que a mulher tenha constantes períodos de alucinações.

Em momentos em que se sente extremamente pressionada, a protagonista entra num estado de transe absoluto. Tudo o que está a sua volta tem um novo sentido para ela, e enquanto sua visão vai gradativamente sumindo – sua audição se torna mais aguçada.
Cada pequeno som, serve de introdução para que sua poesia musical tome conta da tela. Seja o barulho de um trem ou de uma leve brisa, tudo desperta inspiração.

No segundo ato, todas as economias guardadas por Selma acabam sendo roubadas por seu vizinho Bill(David Morse), que se aproveitou da cegueira da mulher para tirar proveito.

Certa de que foi Bill quem a roubou , a protagonista vai à casa do suspeito a fim de reaver a quantia, porém um grave acontecimento ocorre e acaba provocando a prisão dela. Seus amigos, Kathy e Jeff , conseguem encontrar o dinheiro roubado – para que Selma desta forma, consiga contratar um advogado e ter sua liberdade de volta, mas , num gesto de profundo amor maternal ,a personagem recusa a idéia e pede a eles que utilizem o dinheiro para pagar a cirurgia do filho, mesmo que isso impeça sua liberdade ou a consequente condenação.

Antes do veredito, durante o julgamento vemos Selma entrar novamente em transe e imaginar todos no tribunal participando de um número musical – desde o juiz, os advogados e o júri.

“Dançando no Escuro” não é um filme, digamos, agradável de se ver – porém – talvez seja esse o principal fator que chame atenção nesta obra.

A produção é como um soco no estomâgo. Ao mesmo tempo que trata de misérias humanas, retratadas na figura de Bill,ela apresenta algumas virtudes não muito vistas por ai. Aquela mãe, desesperada que aconteça com o filho o mesmo que já ocorre com ela, prefere pagar um alto preço – mesmo que injustamente – a deixar que sua cria tenha um futuro cheio de limitações e sofrimento.

Lars von Trier é um diretor que não se preocupa muito se vai ou não chocar a platéia. Creio que sua principal intenção é mexer com as emoções humanas, fazendo com o espectador se coloque no lugar daqueles protagonistas, mesmo que forçadamente.

A direção de Trier é bastante ousada e competente,de igual modo o roteiro também
merece aplausos. Mesmo que algumas daquelas figuras causem algum tipo de repulsa por suas atitudes ou polêmicas escolhas, o filme tenta mostrar a humanidade de cada um dos personagens, principalmente do repugnante Bill.

A cantora Bjork se sai extraordinariamente bem no papel de Selma. Cada gesto da cantora/atriz transmite o modo pelo qual a personagem enxerga o mundo,como um cenário onde a música flui incensantemente – não importa onde ou em que circunstância.

A trilha sonora é outro elemento surpresa em “Dançando no escuro”. As canções, todas compostas por Bjork, agem no filme como poesias que flutuam nas cenas em que são executadas. “I’ve Seen It All”, por exemplo, é um desabafo de pensamentos e sentimentos transbordantes.

Cada verso é de extremo delírio:

Eu já vi tudo (“I’ve Seen It All”)- Bjork

Eu já vi tudo, eu vi as árvores,
Eu vi as folhas de salgueiro dançando na brisa
Eu vi um homem ser morto por seu melhor amigo
E vidas que se acabaram antes de serem vividas
Eu vi o que eu era – eu sei o que eu serei
Eu vi tudo – não há nada mais para se ver

Você não viu elefantes, reis ou Peru!
Estou contente de dizer que tive um coisa melhor para fazer
E a China? Você viu a Grande Muralha?
Todas as muralhas são grandes, se o telhado não cair!

E o homem com quem você se casará?
A casa que você compartilhará?
Para ser franca, eu realmente não me importo…

Você nunca foi às Cataratas de Niagara?
Eu vi água, é água, isso é tudo…
A Torre Eiffel, o Empire State?
Meu pulso estava tão alto no meu primeiro encontro!
A mão de seu neto enquanto ele brinca com seu cabelo?
Para ser franca, eu realmente não me importo…

Eu vi tudo, eu vi a escuridão
Eu vi o brilho em uma pequena faísca.
Eu vi o que eu escolhi e eu vi o que eu preciso,
E isso é o bastante, querer mais seria ganância.
Eu vi o que eu era e eu sei o que eu serei
Eu vi tudo – não há mais nada para se ver

Você viu tudo e tudo viu você
Você sempre pode revisar na sua própria pequena tela
A luz e a escuridão, o grande e o pequeno
Apenas se lembre de que – você não precisa de mais nada
Você viu o que você era e sabe o que você será
Você viu tudo – não há mais nada para se ver

A força dramática tanto da narrativa do filme quanto da interpretação de Bjork, produzem um singular magnetismo a ponto de provocar na platéia uma sensação,deveras incômoda,de culpa por tanto nos queixarmos dos desprazeres da vida, enquanto outros , como Selma – mesmo tento cruzes imensamente pesadas para carregar, não se rendem a auto-comiseração.

Embora a protagonista se sinta plenamente livre mais especificamente nos momentos de delírio, sua autenticidade é notada desde a primeira cena em que aparece. Isenta de qualquer máscara, Selma brinca e se extasia com as mazelas da vida, sem se refugiar no estereótipo da pobre coitada que implora pela pena dos que estão ao seu redor. Cada minuto é valioso para a personagem.

No mais, só posso dizer que “Dançando no escuro” é cinema da mais pura qualidade.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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