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dezembro 13th, 2018

Em Nome de Deus

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Written by: Flávio Junio
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Difícil não comparar o drama filipino Em Nome de Deus (Captive), dirigido pelo cineasta Brillante Mendoza (Lola), com a estreia do mexicano Rafael Lara por trás das câmeras, o colombiano Conflito Armado (La Milagrosa), de 2008. Ambos transportam o espectador para um ambiente de forte tensão,  onde acompanhamos as angústias vivenciadas por um grupo de reféns à mercê de uma série de guerrilheiros cheios de ideologia. Enquanto na obra de Lara os esquerdistas da FARC eram guiados por intenções políticas e pela necessidade de subsistência, na produção de Mendoza há um viés partidário intercalado com o martírio da sobrevivência nas selvas e a  recorrente discussão religiosa – num cenário onde cristãos e islâmicos possuem espaços  bem delimitados.

A trama tem inicio quando, confundidos com  militares, um grupo de missionários de diversas nacionalidades torna-se alvo fácil do exercito de Abu Saiyed (Raymond Bagatsing), formado por simpatizantes das causas defendidas por Osama Bin Laden (meses antes dos atentados ao World Trade Center), na Ilha de Palawan, nas Filipinas.  Dentre os reféns, encontra-se Thérèse Bourgoine (Isabelle Huppert), uma engajada assistente social francesa que a principio consegue manter-se sóbria protegendo sua veterana parceira (Rustica Carpio) e confrontando quando possível Saiyed e seus liderados. Perseguidos pela força militar enviada pelo governo, o grupo invade um hospital em busca de suporte e nutrientes para os diversos feridos nos confrontos e na fuga acabam por aumentar o número de detidos, capturando algumas enfermeiras. No trajeto rumo ao cativeiro, tanto algozes como suas presas sofrem baixas, muitas delas pelas mãos de militares filipinos, em operações um tanto equivocadas e que denunciam as reais intenções das autoridades locais, mais preocupadas em manter as aparências. No percurso, as divisões doutrinárias entre islamismo e cristianismo ganham destaques pontuais – seja no desesperado clamor de Thérèse para que uma das prisioneiras cristãs seja enterrada dignamente, o que é desprezado pelos raptores, ou  no envolvimento benevolente  dos soldados muçulmanos para com seus iguais entre as vítimas do sequestro.

Entrecortada por eficientes elipses que denunciam o tempo transcorrido desde a captura dos missionários, algo em torno de um ano e meio, a narrativa ganha ritmo e frescor por girar em torno especialmente da personagem de Huppert, que funciona como uma ponte de conexão entre os dois lados do tabuleiro. A tamanha entrega da atriz, que demonstra uma interessante dualidade entre o vulnerável e a perspicácia, contribuiu para que a trama não fosse encarada como um joguete,  com divisão didática entre vilões e heróis. No final das contas, todos sofrem por meio de um poder opressor – e tais atitudes dos rebeldes podem ser comparadas com os diversos movimentos reacionários e anárquicos que assolam mundo a fora. Tal façanha do roteiro escrito por Mendonza, Patrick Bancarel, Boots Pastor e Arlyn dela Cruz – baseado em fatos reais, também garante a transposição realista das mazelas vivenciadas pelos nativos da região, envoltos de muita pobreza e com um sistema de saúde deplorável.

Com uma linguagem quase documental, Em Nome de Deus é uma produção de porte, que ganha pontos pela naturalidade com a qual Mendonza imprimiu o caráter denúncia empregado na mensagem. Não partidário, o longa  não se propõe a apontar culpados numa intricada esfera política, apenas torna evidente as regras morais (ou amorais) de um jogo – e o faz com a grande propriedade.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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