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maio 20th, 2019

Em sua Veia

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Written by: Flávio Junio

Em recente crítica publicada aqui no blog sobre o filme Um tira acima de lei, de Oren Overman, comentou-se sobre a posição de destaque que os rotulados de anti-heróis conquistaram ao longo dos tempos na sétima arte. Os protagonistas virtuosos e cheios de ideais cederam lugar para figuras polêmicas em graus elevados, e que — por assim dizer — não assumiam nenhuma bandeira de bom mocismo nem  traziam para si a obrigação de se tornarem exemplos imaculados para quem quiser que fosse. Nesta mesma linha,  encontra-se Eva (Malin Crépin), a nem tão intrépida oficial do drama sueco Em sua Veia (I skuggan av värmen, no original), dirigido pela cineasta Beata Gårdeler.

Baseado na obra de Lotta Thell, a produção narra a história de uma oficial de segurança que tenta a todo o custo esconder seu vício em heroína de seus colegas de trabalho, quase que assumindo outra identidade como forma  de se preservar. Responsável pela ronda da região onde mora, Eva circula com seu cão durante a noite inspecionando as ruas e paralelamente percorrendo os becos e lugares mais sórdidos a fim de sustentar o vício que a acompanha desde a adolescência. Longe da filha, da qual perdeu a guarda, a personagem constrói um muro imaginário ao seu redor e apenas uma amiga, também viciada, sabe de sua fragilidade com as drogas. Incólume até então, a vida de Eva passa a ganhar novos contornos quando assume o romance com Erick (Joel Kinnaman), seu colega oficial, de quem — a principio, consegue camuflar seus demônios interiores. Decaindo fisicamente e gradativamente perdendo sua capacidade neurológica, a muralha ficcional na qual se abrigava vai desmoronando e seus problemas se tornam visíveis, inclusive para seu novo relacionamento – que no final das contas torna-se o réquiem para seus fantasmas.

Ancorado pelo brilhante texto de Thell,  atendo-se com propriedade ao caráter degenerativo que as drogas vão causando às vitimas do vício, grande parte delas com um histórico de vida que justifique – Em Sua Veia  é uma produção modesta, mas em constante alta voltagem. Gårdeler eleva diversas situações com uma crueza abismal, explorando o duelo existencial travado pela protagonista até a última potência. Neste delírio entre assumir sua posição de autoridade como exige a profissão e dar vazão a seus impulsos, Eva vai aos poucos perdendo o controle — numa abordagem bem semelhante a adotada por Darren Aronofsky  e seu Requiem para um Sonho — e ironicamente mergulhando no “condenável”. A atmosfera soturna adotada pela cineasta, apostando em cenários pouco iluminados ou melancólicos, contribuiu efetivamente para contextualizar sua história. Apesar do ótimo aparato técnico, o grande trunfo do longa é a performance da atriz sueca Malin Crépin , pouco antes de assumir a persona de Annika Bengtzon na homônima serie policial escrita por Liza Marklund. Evitando certos maneirismos, Crépin foi promissora ao dosar seu trabalho entre o sutil e o intenso, numa crescente à medida que sua personagem vai entrando em um estágio de erupção emocional. De igual modo, Joel Kinnaman funciona como o porto seguro da pesada narrativa, a peça de equilíbrio na vida da protagonista.

Sem grandes pretensões, Em Sua Veia chama a atenção pela maneira crua e realista com a qual a decadência humana é ilustrada.  Uma amostra digna de nossa mascarada autossuficiência, que vai ruindo na proporção de nossas escolhas e decisões um tanto quanto equivocadas.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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