RESENHAS

julho 26th, 2017

Garota Exemplar

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Written by: Flávio Junio
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É fato, tal qual Quentin Tarantino, Chris Nolan e outros mais, que David Fincher consegue ser extremamente bem sucedido quando a obra que leva sua assinatura possui sua visão como primazia, em detrimento aos mandos e desmandos do estúdio. O ritmo ágil, o senso de humor negro e uma linguagem particular dominam os filmes sob o comando de Fincher, que presenteou o mundo com os singulares Seven e Clube da Luta e ganhou uma série de detratores com o açucarado (e tediante)  O Curioso Caso de Benjamim Button. Com Garota Exemplar (Gone Girl), é possível desfrutar novamente do eletrizante tino do cineasta para trillers policiais, onde nada — lançando mão da frase clichê, é o que parecer ser.

Baseado na obra de Gillian Flynn, que atua também como roteirista, o filme acompanha a trajetória de um casal de escritores – um deles bem sucedido e o outro  decadente, e os preparativos para o aniversário de cinco anos de casamento. Enquanto Amy Dunne (Rosamund Pike) é considerada um ícone da literatura infanto-juvenil, servindo até mesmo de inspiração para uma personagem de seus livros, Nick (Ben Affleck) teve uma frustrante experiência no ramo editorial, e leva sua pacata vida administrando um bar ao lado da irmã Margo (Carrie Coon). Exatamente no dia de comemoração de meia década de matrimônio, Amy desaparece sem deixar vestígios, mobilizando a policia e a imprensa (obviamente com direito ao sensacionalismo barato). As suspeitas para o sumiço da bela mulher recaem sobre o marido, pressionado a confessar a autoria de um possível crime, ao ter seu casamento de conto de fadas desconstruído por uma mordaz cobertura jornalística, que o alça ao posto de vilão que aniquilou os sonhos (e a vida) da angelical esposa. A partir daí, Nick Dunne tenta provar sua inocência e ao mesmo tempo desvendar o paradeiro da esposa.

1035x682-20140717-gone-girl-1800-1405626402À primeira vista, Garota Exemplar, em sua raiz, pode se assemelhar à uma série de longas rotulados pelo gênero suspense policial, estruturados pelo mistério e a fogueira de vaidades, entretanto sua execução o eleva a um patamar mais nobre, onde se encontram o longínquo Seven e a adaptação de Os Homens que Não Amavam as Mulheres. De maneira inteligente, e sem o didatismo habitual em produções similares, Fincher vai revelando um pouco da personalidade dos dois protagonistas, com estilos e personalidades distintas, destacando os feitos de um casal modelo, com conduta irretocável e indefectível até então. O cineasta apresenta Nick e Amy como duas figuras normais, que se amam e se sentem seguras quando juntas. A harmonia do lar — interrompida pelo sumiço de Amy, é comprovada pelos flashbacks que destacam a relação dos dois e que ganham reforço com a narração em off da personagem, desnudando sua alma nas linhas de um diário. O que poderia descambar para um melodrama previsível e descabido acaba tornando-se essencial para a trama. O bom marido que atenta contra a vida da esposa perfeita, a garota exemplar que todas querem ser e todos desejam possuir – um ótimo pedido para o jurídico (representado aqui por Tyler Perry) e o midiático (nas personas de Missi Pyle e Sela Ward). É interessante que, periclitando a cair no lugar comum em diversos momentos, David Fincher sobressai-se e consagra-se como um ótimo arquiteto, aliado a competente montagem de Kirk Baxter.

Ben Affleck e Rosamund Pike estabelecem um perfeito contraponto, o marido pacífico mas infiel e a esposa determinada e um tanto ingênua. A perfomance da dupla é digna de elogios, em especial o desempenho de Pike, que sem sombra de dúvidas é seu passaporte para o estrelato.

Num ano sem grandes destaques cinematográficos ou obras de fato memoráveis, Garota Exemplar surge como um sopro de ar fresco, uma produção que faz lembrar ao espectador, o que foi dito no início desse texto, que nada – simplesmente nada — é o que parecer ser.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




One Comment


  1. JACQUELINE

    Louca! Inteligente! Inacreditável!



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