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julho 26th, 2017

Gravidade

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Written by: Flávio Junio
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Projeto que estava na fila de espera já algum tempo, Gravidade – longa dirigido e co-roteirizado por Alfonso Cuarón, não apenas demonstra que o interregno entre a concepção do roteiro e o desenvolvimento da produção valeu a pena, mas aponta para o resgate de uma tendência que havia se perdido com o tempo e ensaiado um retorno com a oficial Maya de A Hora Mais Escura: a presença feminina na linha de frente na execução de uma operação de risco.

Em sua primeira missão espacial, a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock), expoente na engenharia médica — juntamente com seu parceiro veterano Matt Kowalsky (George Clooney), o chefe da missão – e mais um astronauta, é colocada diante de uma prova de fogo, capaz de derrubá-la por qualquer descuido. Após dejetos de um satélite danificarem o ônibus espacial que servia de base para a missão, Stone e Kowalsky ficam a mercê do espaço, isolados na órbita terrestre, com o oxigênio diminuindo gradativamente. Num misto de sufocante claustrofobia — contrapondo-se a infinitude do ambiente (sensação bem semelhante a do longa Mar Aberto) — e deslumbre com as imagens vistas a olho nu, os dois oficiais não têm muito a fazer, a não ser aguardar um eventual resgate ou sucumbir diante do destino aparentemente já selado.

Com uma premissa bastante simples, mas com extraordinária execução, Gravidade consegue estabelecer uma perfeita conexão com o público, que acompanha como cúmplice as angústias dos personagens (em maior escala o sofrimento da Dra. Stone, uma vez que Kowalsky — provavelmente tentando dominar a situação e não demonstrar medo — enfrente tudo com certo sarcasmo). Ao optar por dar inúmeros closes nos rostos dos atores, atrás dos pesados capacetes, e confiar a sonorização apenas nas respirações ofegantes dos astronautas e nos diálogos travados por eles, Cúaron intensificou na medida correta o clima de tensão, tornado insuportável pelo silêncio absoluto quebrado apenas pelo surgimento da “ameaça”. A propósito, é louvável que o roteiro não tenha optado por um caminho mais fácil quanto ao elemento antagonista. Desta vez não são alienígenas imponentes, nem asteroides devastadores – o medo é extraído através da sutileza do momento, da incerteza do que pode surgir pela frente; do cenário solitário ou da insegurança do como ou quando agir. Diante de tudo isso, ao entregar o desfecho da trama para a personagem de Bullock, o cineasta trouxe de volta a heroica figura feminina perante o desenvolvimento da ação. Mesmo que Jodie Foster com sua Ellie Arroway tenha se destacado em Contato, de Robert Zemeckis – a lendária Tenente Ripley  (Sigourney Weaver) , de Alien, o 8º Passageiro,  ainda é uma força propulsora. Não tão ágil e preparada quanto o parceiro, Ryan Stone é sem dúvidas o melhor papel da carreira de Sandra Bullock. Mais emocional do que racional, a Dra. Stone ainda tem que lidar com fantasmas do passado que tornam toda aquela experiência ainda mais terrificante.

Ultizando a técnica do 3D com muita competência, Alfonso Cuarón obteve resultados bastante satisfatórios, provando que tudo depende do saber dosar no que diz respeito a utilização dessa tecnologia.

Honrando seu caráter cientificista somado a atmosfera ( literalmente) dramática, Gravidade é sem dúvidas um dos melhores trabalhos do ano, e entra para a história como das mais relevantes produções de ficção científica já realizadas.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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