RESENHAS

julho 26th, 2017

Livre

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Written by: Flávio Junio
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A jornada pelo autoconhecimento pode ser amarga e impiedosa. Trilhamos por vales tortuosos, impávidos tentamos nos posicionar, colocando em risco nossa serenidade (ou sanidade?). Cheryl Strayed, protagonista de Livre, de Jean-Marc Vallée, tenta desafiar seu físico e imobilidade, caminhando sozinha cerca 1.770 quilômetros de uma trilha conhecida como PCT (Pacific Crest Trail). Longe do conforto de um lar, ela mesmo sem querer luta por sua sobrevivência depois que uma adversidade a atinge — passando a levar uma vida desregrada, com direito a sexo e drogas.

Baseado na obra autobiográfica homônima, Livre se propõe a acompanhar a jovem Cheryl (Reese Witherspoon) que em meio às tristes lembranças da adolescência, época em que perdeu a mãe (Laura Dern) — vítima de um câncer no pulmão, decide se aventurar por uma longa caminhada, enfrentando fome e dores físicas, além das escassas condições de higiene. Nessa exaustiva viagem a protagonista é acompanhada por seus demônios interiores, representados aqui por vozes e flashbacks, que direta ou indiretamente são acionados como narradores. O recente divórcio marca de igual modo sua tortuosa fase.

Reese Witherspoon in Wild

Jean-Marc Vallée em seu longa mais recente, Clube de Compras Dallas, já havia dado claros sinais do seu tino para desconstruir suas personagens, numa espécie de autoflagelo emocional, tornando-as mais significativas na narrativa. Enquanto o Ron Woodroof de Matthew McConaughey agia  — muito impulsionado por sua condição de saúde — em favor coletivo, a Cheryl de Witherspoon surge na tela aparentemente guiada pelo sentimento de aventura – não calculando as perdas em uma guerra onde sua persona  é seu maior inimigo. O roteirista britânico Nick Hornby insere a personagem num universo totalmente desconhecido a ela, e para onde vai estruturamente despreparada. A obscuridade não se restringe ao físico, mas na capacidade humana para lidar com o incerto. À primeira vista a produção pode lembrar Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Pen, ou 127 horas, de Danny Boyle, entretanto quando suas intenções são definidas o elo acaba se partindo. O centro da trama aqui aposta muito mais na introspecção e consequentemente os maiores perigos são derivativos dessa. Metaforicamente o trajeto por onde Cheryl percorre sinaliza sua transição interna. Do deserto para campos tomados pela neve até uma zona mais arbórea – um eficiente recurso adotado por Vallée – o que torna a experiência mais contemplativa.

Reese Witherspoon entrega o melhor trabalho de sua carreira. Longe do glamour habitual, a atriz ousa ao deixar de lado determinados pudores, transmitindo com veracidade os impactos dos acontecimentos bilateralmente. Sua interpretação  afasta um pouco o estereótipo angelical conferido a ela ao longo dos anos.

Nessa busca por respostas somos obrigados a confrontar nossos maiores medos. No abismo que separa identidades é necessário descobrir em qual lado está, mesmo que para isso estejamos diante de neuroses. Livre não tematiza o sentimento de fuga, é  mais do que isso, é um caminho de volta para as raízes, como dito em certo momento por Cheryl: “andar a pé até voltar a ser a filha que a mãe criou”.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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