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abril 23rd, 2019

Lugares Escuros

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Written by: Flávio Junio
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Baseado na obra homônima de Gillian Flynn, a mesma do sucesso Garota ExemplarLugares escuros, dirigido pelo francês Gilles Paquet-Brenner, chega à telas aparentemente com a missão de manter o nível das adaptações de Flynn para a plataforma cinematográfica, apostando em boas doses de suspense e investigação —  entretanto o intuito é frustrado, pois a produção apresenta algumas imperfeições difíceis de serem ignoradas.

Libby Day (Charlize Theron) é uma mulher na faixa dos trinta anos que carrega sérios traumas, além da fama de ser a única testemunha que sobreviveu a um massacre ocorrido em seu lar, quando — ainda criança, conseguiu escapar de um assassino que vitimou sua mãe e as duas irmãs. Seu irmão Ben (Ty Sheridan no início e Corey Stoll na fase adulta)  levou a culpa pelo crime, também influenciada pelo testemunho de Libby, bem como pelas acusações de pedofilia e satanismo — e foi condenado a 28 anos de prisão. Vinte anos após o episódio, já adulta, a protagonista é obrigada a voltar ao passado, depois que Lyle (Nicholas Hoult), um jovem aficcionado por crimes famosos, e a frente de um clube cujos membros investigam amadoramente casos antigos, entra em contato com ela oferecendo dinheiro para que sua fatídica história possa ser enfim desvendada e o mistério envolvendo Ben esclarescido. 

Bem ao estilo "nada é o que parece ser", o longa tem elementos que seriam capazes de  torná-lo um thriller mordaz — porém o também roteirista Paquet-Brenner não desenvolve seus personagens — ricos dramaturgicamente diga-se de passagem, de forma orgânica. Patty Day (Christina Hendriks) é a matriarca dos Day, que sozinha cria os quatro filhos em uma fazenda no Kansas. Prestes a perder sua propriedade, por causa das dívidas, a personagem enfrenta ainda as graves acusações que colocam em risco a liberdade de seu primogênito. Tal premissa poderia render arcos dramáticos memoráveis: a distância entre a mãe e o filho, a culpa sobre os ombros dela e o impacto disso sobre as crianças; a diferença de personalidades entre os irmãos, o relacionamento fracassado com Runner — o pai e marido omisso. Em contrapartida Lugares Escuros aposta na intensa velocidade dos acontecimentos, distanciando o espectador da história, não permitindo um maior envolvimento. Essas pontas soltas comprometem o resultado final. Tudo só não está perdido pela montagem eficiente de Billy Fox, combinando cenas atuais com bem elaborados flashbacks, e pelo elenco talentoso.

Christina Hendricks está irreconhecível como a mãe melancólica que de tudo faz para que seus filhos consigam ter uma vida "normal", em detrimento à miséria e a desfuncionalidade da família. Hendricks chega a comover pela vulnerabilidade com a qual personifica sua desperate housewive. Outro destaque, Corey Stoll apresenta Ben como um sujeito conformado com a situação, não exatamente arrependido por seus atos, mas condescedente mesmo com as duas décadas na  prisão. Já Charlize Theron novamente é o centro das atenções. Amarga e não muito aberta a sentimentalisto, Libby consegue manifestar no espectador ódio e compaixão — portando-se como uma anti-heroína aversa a opiniões alheias e toques (infelizmente, determinado elemento em seu caráter, primordial no desfecho da trama do livro, é simplificado na telona).   

Após assistir Lugares Escuros, é impossível não imaginar o que faria Denis Villeneuve ou David Fincher com esse material em mãos, visto que Os SuspeitosGarota Exemplar são dois eletrizantes exemplares do segmento investigação/suspense que conseguiram elevar o gênero. Não tão fascinante quanto os citados, a produção limita-se a ser mais uma no extenso grupo de filmes aquém do material que o originou. Uma pena.   

 


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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