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julho 26th, 2017

Mate-me

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Written by: Flávio Junio
F083

Não há dúvidas, nossas guerras internas – aquelas que tanto combatemos intimamente e que nos destrói aos poucos — podem ser mais letais do que qualquer outra batalha. Ao depararmos com as atitudes exóticas dos protagonistas da coprodução entre Alemanha, França e Suíça, o longa Mate-me (Tote-Mich no original) , deixamos de lado um senso deveras pueril e admitimos: nem tudo é o que parece ser, e os atos mais surpreendentes chegam de onde menos esperamos.

Dirigido e roteirizado pela cineasta alemã Emily Atef, o filme se centra na história de uma jovem adolescente que vive com a família em uma granja num cenário bucólico no interior da Alemanha. Ainda traumatizada com a perda do irmão em um acidente, Adele (Maria Dragus) torna-se obsessiva quanto a possibilidade de cometer suicídio, acabando enfim com o martírio emocional que a oprime. Incapaz de cometer tal ação sozinha, a personagem encontra uma solução depois que é surpreendida com a presença de um foragido da justiça dentro de casa. Acusado de matar o pai, Timo (Roeland Wiesnekker) se refugia dentro do lar de Adele – com quem acaba firmando um acordo. Em troca de ajudá-lo em sua fuga rumo a Marselha, o ex-detento terá que empurrá-la de um penhasco. Com o acordo selado, começa uma viagem onde os dois vão se revelando e se desconstruindo aos poucos.

Com sensibilidade e precisão, Atef conduz a trama estabelecendo um clima intimista entre duas figuras que se opõem e se completam emocionalmente. A ingenuidade angelical de Adele contrastando com a fúria e o rancor eloquente de Timo, o medo e a insegurança que têm em comum em não saber lidar com o que aparece pela frente. A cumplicidade que surge à medida que avançam na jornada em busca de uma liberdade não apenas literal, mas espiritual. O envolvimento entre os protagonistas foge do caráter sensual ou sexual, a relação aqui é muito mais fraternal ou mesmo paternal, com ambos alternando na posição de controle conforme os atos vão sendo transcorridos. Ao melhor estilo Dardenne, o clímax proposto pela cineasta é regado de sutileza, evitando ao máximo os clichês hollywoodianos, constantemente ancorados por uma trilha-sonora maniqueísta. Camada a camada a trama vai sendo contada e desenvolvida e é impossível não creditar o grande êxito do filme à presença de seu elenco. A jovem Maria Dragus de A Fita Branca é um talento promissor. A apatia decorrente de uma vida no campo sem grandes surpresas e somada a um trauma do passado e o choque das diferenças entre ela e seu novo “amigo” – Dragus consegue apresentar uma interessante variedade de nuances, arrancando do espectador muito mais curiosidade do que pena. Wiesnekker por sua vez é brilhante ao personificar Timo como um trem desgovernado, totalmente sem direção. O ódio latente com o tempo vai cedendo lugar para um indivíduo que não sabe exatamente o que quer, e que de alguma forma enxerga na menina um porto seguro, capaz de detê-lo e evitar sua autodestruição, na verdade uma ironia do destino.

Modesto e sem grande alarde nos festivais internacionais, Mate-me é uma película que celebra descobertas e aposta com propriedade no improvável. É uma produção na qual a dor, a ousadia e o desespero estão todos numa mesma valsa.

 


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




One Comment


  1. Não conhecia ainda esse filme. Parece ser bem interessante. Particularmente, o que me chamou a atenção em relação à “Mate-me” foi a sua trama, que parece ser bem densa, desde que bem trabalhada – o que parece ter sido o caso desse longa.



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