RESENHAS

novembro 19th, 2017

Mulher-Maravilha

More articles by »
Written by: Flávio Junio
Tags:,
maxresdefault

Muitos podem se perguntar o que se passou na cabeça de William Moulton Marston quando criou no início dos anos quarenta aquela que seria a maior super-heroína dos quadrinhos. Uma mulher forte e decidida que luta pela verdade e combate a guerra travada entre os homens, geralmente pela tomada do poder.  Dos quadrinhos para as animações e a famosa série de TV, estrelada por Linda Carter, a Mulher-Maravilha sempre foi considerada um meio termo entre o colossal Superman, outro símbolo da perfeição e valentia, e o soturno Batman.  Uma figura que, embora não se intimida em matar inimigos, traz o amor como sentimento a ser propagado.

Várias foram as tentativas de levar a Mulher-Maravilha para o cinema. Nomes como Ivan Reitman e  Joss Whedon estiveram envolvidos para dirigir um live action, enquanto isso Angelina Jolie, Megan Fox, Priyanka Chopra e até Sandra Bullock em algum momento ou outro surgiram como possíveis intérpretes da amazona. Entretanto, só em 2015, substituindo Michelle MacLaren, que desistiu do projeto alegando diferenças criativas, foi que Patty Jenkins assinou contrato para enfim dar o pontapé inicial à superprodução. No posto da personagem, a desconhecida israelense Gal Gadot.  

Depois de um amplo trabalho de divulgação através de trailers que aparentemente contavam muito, mesmo sem revelar determinados elementos, estreou na tela grande o tão aguardado longa da Mulher-Maravilha, com toda a pressão a que tinha direito, após o malfadado Batman Vs Superman. E o resultado é muito bom.

Ao optar por uma trama que conta a origem de Diana, Jenkins – juntamente com o roteirista Allan Heinberg (em parceria com Zack Snyder e Jason Fuchs) conseguiu atrair o público em cheio. Com um interessante recurso – o longa narra como se deu a aparição das amazonas e o posicionamento delas frente ao mundo opressor e obscuro – desconhecido pela maioria. Embora didático, o gancho ilustrou perfeitamente a criação daquelas mulheres, que cuidavam de si próprias, sem a assessoria de nenhum ser do sexo masculino. Viventes em Themyscira, a  Rainha Hipólita, sua irmã Antíope, Diana e as demais amazonas não sabiam exatamente o que era uma guerra e as reais motivações de uma batalha, mesmo que fossem treinadas exaustivamente para se defenderem, não lidavam com a morte tão próxima daquele ambiente colorido e arborizado como Themyscira – um primor destacado fotografia de Matthew Jensen.

O grande divisor de águas foi com toda a certeza à chegada do piloto americano Steve Trevor – que – em plena Primeira Guerra Mundial, lutava para acabar com o conflito e por obra do destino cai com seu avião no mar próximo do lar das amazonas. A partir daí, o longa de Patty Jenkins segue uma crescente, e deixa claro que todos os erros cometidos em Batman Vs Superman seriam ali evitados. Ao contrário de Zack Snyder, que apresentou os famosos personagens da DC como símbolos que deveriam ser reverenciados, Jenkins optou pela leveza e uma abordagem mais sútil, com direito a pitadas de humor e romance, desenvolvidas pela ótima química entre Gal Gadot e Chris Pine. Em tempo, a atriz israelense assumiu uma responsabilidade e tanto, talvez da mesma proporção da de Christopher Reeve no primeiro Superman. Gadot brilha principalmente nas cenas de ação, demonstrando um vigor surpreendente. Há uma escorregada ali outra aqui quando é obrigada a demonstrar expressões mais regadas à emoção, entretanto são detalhes que podem ser contornados com o tempo numa muito possível franquia. Já Pine constrói o parceiro da heroína como alguém que não fica à sombra da protagonista, mas também não quer roubar os holofotes – nenhuma alusão ao embate feminismo x machismo — mesmo havendo uma áurea de empoderamento.

Talvez um dos grandes pecados da produção seja o pouco desenvolvimento dos vilões. Tanto o general Ludendorff quanto a Doutora Veneno são inseridos na trama sem qualquer cerimônia ou mistério, o que meio que desobriga o esforço de bons atores como Danny Huston e Elena Anaya – embora estejam fantasticamente caricatos. Outro ponto desabonador é a grandiloquência do terceiro ato, que contrasta com a seriedade e firmeza da primeira e segunda a parte. É possível identificar esses pontos como elementos produzidos pelas mãos de Zack Snyder (aqui co-roteirista e produtor) – um mestre do exagero que deu ar de sua graça em filmes como Sucker Punch e Watchmen da pior maneira possível.   

Para uma personagem que demorou mais de 70 anos para ganhar seu primeiro longa-metragem, o mais caro e regado de expectativas protagonizado por uma heroína, Mulher-Maravilha cumpre sua missão com louvor e direciona as próximas produções da DC para um caminho onde seus heróis não sejam levados tão a sério em seus filmes solos ou em conjunto, como será em Liga da Justiça, mas que de igual modo não caiam no estilo gaiato empregado nos recentes longas dos personagens da Marvel. De fato, Mulher-Maravilha não é nada menos notável e marcante.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




0 Comments


Be the first to comment!


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *