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julho 26th, 2017

Os Suspeitos

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Written by: Flávio Junio
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Em Incêndios, o cineasta Dennis Villeuneve deu claros sinais de quais são as marcas de sua filmografia. A incessante busca pelo desconhecido, por um dado que possa levar ao elemento chave de uma jornada que revelará as motivações de um ato ou resgatar algo que lhe foi tomado, está presente nas tramas do canadense. Se o citado longa agradou com sua história coesa e aflitiva sobre os irmãos à procura de um ente que não sabiam existir, Os Suspeitos (Prisioners) mostra-se ter a mesma voltagem para ir além.

Roteirizado por Aaron Guzikowski , o filme narra as agruras de duas famílias comuns que após se reunirem para comemorar o feriado de Ação de graças, são tomadas pela tensão quando as filhas caçulas de ambas desaparecem repentinamente. Um fato tão corriqueiro que aproxima imediatamente o público da tela. Liderados por Keller (Hugh Jackman), os Dover  — contando ainda com a esposa Grace (Maria Bello) e o filho Ralph (Dylan Minnette) – e os Birch – Franklin (Terrence Howard), Nancy (Viola Davis) e Eliza (Zoe Borde), incessantemente procuram pelas imediações o paradeiro das garotas sem obter qualquer sucesso. Tendo como único suspeito o motorista de um trailer móvel que estava estacionado nas redondezas, os casais e a polícia local, com o detetive Loki (Jake Gyllenhaal) como representante, fixam-se na ideia de que Alex Jones (Paul Dano) ou foi o responsável pelo sumiço de Anna e Joy ou conhece a identidade de quem o fez. Com o passar dos dias e entregue ao clima desesperador logo após a soltura, por falta de provas, de Jones – Keller decide por si mesmo submeter o jovem a um interrogatório, com base em métodos nada convencionais.

Narrado de forma tocante, mas não carregado no tom, Os Suspeitos equipara-se, respeitando às devidas proporções, com Medo da Verdade, de Ben Affleck, que com mãos de ferro comandou a trama onde também acompanhamos a mobilização da policia e mídia para encontrar uma criança raptada. O desenvolvimento do roteiro, que rendeu mais de duas horas de projeção, é conduzido com uma tranquilidade particular aos filmes de detetives, nos quais cada pista ou rastro é valorizado e pacientemente o mistério vai sendo desvendado, mas não sem antes confundir o espectador. O caráter investigativo concebido ao thriller surpreende ainda por confiar à história consistência — não caindo no lugar comum, mas mesmo assim evitando os excessos de inventividade

A entrega emocional dos atores é outro ponto a destacar. Se Terrence Howard e Viola Davis , com atuações mais contidas, brilham interpretando o casal Birch – Hugh Jackman e Maria Bello fazem um ótimo contraponto. A Grace Dover de Bello rende-se à situação emocional e fisicamente, sua fragilidade a mantém inativa para lidar com o sumiço da filha, ficando a mercê de remédios e lembranças. O ótimo trabalho da atriz também pode ser notado quando o comparamos com seu desempenho em Tarde Demais, no qual ela interpreta uma personagem com traços semelhantes, porém com algumas singularidades. Enquanto isso, Hugh Jackman é a energia do filme. Keller Dover traz para si a responsabilidade de desvendar o caso, para o qual, segundo ele, a polícia tem se mostrado ineficiente. A fúria e o descontrole que assolam o personagem atingem vários decibéis, chocando-se – ou adaptando-se – com sua religiosidade fervorosa, que o faz orar inúmeras vezes o Pai Nosso, interrompendo-o apenas no trecho sobre troca de indulto. Jake Gyllenhaal, por sua vez, oferece o melhor trabalho de sua carreira interpretando o detetive Loki. Frio nas ações, o policial demonstra segurança em suas respostas para a conclusão do caso, mesmo que internamente sinta a forte pressão decorrente do episódio, e com um sutil tique nervoso sinalize os efeitos disso.

Acima da média no gênero, Os Suspeitos trata de prisões, como bem salienta o titulo original. Sejam cárceres físicos ou emocionais, todos se tornaram reféns deste jogo, o qual ninguém está totalmente preparado para enfrentar, mas que é preciso saber jogar se quiser sair dele.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




2 Comments


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