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fevereiro 18th, 2018

Primeiro Eles Mataram Meu Pai

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Written by: Flávio Junio
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Ainda com uma curta carreira como cineasta, iniciada com Na Terra de Amor e Ódio, Angelina Jolie está em evidente evolução por trás das câmeras, o que pode ser comprovado por seu mais recente trabalho, Primeiro Eles Mataram meu Pai, que fez em parceria com a Netflix.

O drama, baseado na obra escrita por Loung Ung, a personagem real que quando criança sobreviveu ao genocídio ocorrido no Camboja pelas mãos do regime opressivo do Khmer Vermelho, acompanha a protagonista em seu sólido seio familiar, formado por nove pessoas, e que – assim como outras famílias, são obrigadas a deixarem seu lar, após a retirada das tropas americanas da região – o que permitiu assim a expansão do domínio da violenta organização. Uma sucessão de discursos de ódio, abusos psicológicos e físicos são narrados através dos olhares da pequena Loung (Sareum Srey Moch), então com cinco anos, que separada de seus pais e irmãos é recrutada por um dos campos onde os “camaradas” executam atividades braçais, além de serem treinados como soldados.

Compartilhando a assinatura do roteiro com Ung, Angelina Jolie conduz a narrativa com precisão – permitindo que a trama flua sem pressa e não pulando etapas. Somos apresentados aos personagens – depois de um discurso onde o então presidente Richard Nixon saúda a posição imparcial do Camboja na Guerra do Vietnã – para depois atacar a capital com bombardeios, nos levando a família Ung – liderada pelo pai militar. A partir das ações do regime, os Ungs vão sendo divididos sob ordens do exército do Khmer Vermelho, e forçados a sobreviverem sem os outros membros – substituindo o apego por resignação.

Com momentos que chegam a lembrar a contemplação ao passado vista em A Árvore da Vida, com a câmera fechada nos iluminados rostos dos protagonistas, onde o horror do agora contrasta com ao êxtase de felizes memórias do passado – a produção é tocada com bastante sensibilidade, ilustrada por interessantes paradoxos como a bela imagem panorâmica na qual um grupo de monges é retirado de um cortejo, para ser executado sob o argumento de não ser útil. De certa forma, Primeiro Eles Mataram meu Pai lembra ao canadense A Feiticeira da Guerra e ao americano Beasts of No Nation – também protagonizados por jovens tornados crianças soldados — entretanto o que separa o longa de Jolie dessas produções é a sutileza adotada nas cenas centradas nos atores mirins. A violência aqui é mais psicológica do que física. Não há crianças como expectadoras da execução dos pais e nem uma transformação brutal dos personagens em máquinas de guerra. A jovem Loung, por exemplo, deduz o que deve ter ocorrido com seus progenitores — fadados a uma morte iminente — mas sem garantias disso. Notas-se também que, embora a trama se passe em uma zona de conflito, a primeira cena com vítima se dá depois de mais de 1 hora de projeção.

Com bastante conhecimento de causa devido as suas intensas contribuições humanitárias e ao fato de um de seus filhos ser nativo do Camboja, Angelina Jolie entrega sua melhor produção como diretora, revelando um notável amadurecimento. Toda a pretensão vista em produções como Invencível foi substituída por ponderação. E se há algum demérito ao fato do filme se estender desnecessariamente na metragem, o que poderia ser solucionado na mesa de edição, o mesmo não atrapalha o seu brilhantismo, reforçado pelo tocante desempenho de Sareum Srey Moch – um verdadeiro achado.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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