RESENHAS

abril 23rd, 2019

Que Horas Ela Volta?

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Written by: Flávio Junio
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Em um país onde a má distribuição de renda e a desigualdade social são inerentes à estrutura de uma nação que caminha a passos largos para romper com essa fama, somos apresentados a grupos familiares díspares no agir e a reagir quando uma ameaça tende a abalar uma confortável “redoma”. Em Que Horas Ela Volta? a cineasta Anna Muylaert trata desses conflitos entre a classe média , com seus elevados e egoístas padrões, e uma parte do Brasil que procura sua subsistência dentro de lares luxuosos, como empregados da  parcela mais abastada , que cinicamente os considera como praticamente da família.

Val (Regina Casé) abandona o Pernambuco, deixando sua filha com o avô, e viaja para São Paulo em busca de maiores possibilidades financeiras. Na capital, torna-se uma fiel  empregada e babá de uma família da alta sociedade, que entrega para a  mulher a responsabilidade de cuidar do filho dos patrões, que  cresce na aba da saia da empregada, em detrimento à ausência da  mãe. Três anos depois, sua filha, a agora adolescente Jéssica (Camila Márdila), decide prestar o vestibular em uma renomada faculdade em São Paulo, e vai ao encontro de Val, que com o desejo de se reaproximar da filha a traz para morar com ela na casa dos patrões.  O que a princípio não gera problemas, torna-se um agravante diante da postura da garota para as  imposições e a clara divisão social.

Que-horas

O choque entre classes e as demarcações de espaços, bem ilustradas pelas câmeras de Muylaert, conduzem a trama por um universo onde a convivência entre nichos distintos é quase uma obrigação, mas não propriamente suportável. A cineasta trabalha a cenografia com competência, salientando essa limitação territorial. Em um mesmo plano, enquanto Val ganha destaque inserida na cozinha da imensa casa dos patrões, esses, no foco ao lado, discutem questões envolvendo a educação do filho. Da mesma forma, num interessante plano sequência à la Michael Haneke , a empregada perambula pela casa, servindo os amigos dos anfitriões, muitos os  quais não chegam a dirigir seus olhares para aquela que os servem, conferindo indiferença, numa possível alusão ao período escravagista. A passividade e acomodação de Val  encontra resistência por parte da primogênita, o olhar do espectador, cuja personalidade ilustra um Brasil mais  recente,  que,  mesmo com as ainda presentes mazelas, conseguiu dar alguns importantes passos. Uma nação onde o acesso a  alguns luxos de  outrora, como viagens de avião e ascensão cultural e intelectual, não está mais restrito a uma só camada. Nessa relação entre opressão e oprimidos não há exatamente uma divisão, o que torna a obra de Muylaert pertinente. A preocupação em demonizar ricos e santificar os desfavorecidos é irreal. Se existe necessidade de construir posições com dominantes e dominados, essas são rotativas. A elitizada Bárbara (Karine Teles, ótima), por  exemplo, é desenvolta para dar ordens, em contrapartida revela-se fragilizada quando parece perder espaço e atenção para a jovial filha da  empregada.

Somado a qualidade do texto , também escrito por Anna Muylaert, e a sóbria direção, destaca-se o brilhante desempenho de todo elenco. Regina Casé constrói Val com uma sensibilidade singular. Carioca de origem, a atriz jamais soa farsesca ao adotar o sotaque nordestino e se  comportar como alguém que em partes abriu mão de sua família. Sua química com a revelação Camila Mardila é inquestionável. Essa, por sua vez, surpreende por encarnar com naturalidade alguém que não se contenta ou não se conforma com a imagem que projetam para ela, provavelmente uma mulher que seguirá os passos da mãe, escondida no quarto dos fundos de uma ostentosa construção, enquanto não é convocada para servir seus empregadores.

Escolhido pelo Ministério da Educação para representar o Brasil na disputa por uma das cinco vagas  do Oscar 2016, Que Horas Ela Volta? talvez seja a grande chance do país de retornar à grande premiação, principalmente por desta vez  ser uma produção que tenha algo , muito comovente, a se dizer.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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