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novembro 19th, 2017

Sunshine on Leith

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Written by: Flávio Junio
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Em meio a megalomania de tantas produções advindas de Hollywood ou de outras partes do globo com orçamentos estratosféricos e que carecem de consistência, deparar com projetos despretensiosos, mas repletos de qualidades artísticas e técnicas — como o musical britânico Sunshine on Leith , de Dexter Fletcher, é de fato um refrigério.

Baseado no musical de sucesso dos palcos londrinos, no qual as canções da banda de pop folk The Proclaimers servem como base, o filme acompanha os passos dos amigos Davy (George Mackay) e Ally (Kevin Guthrie) em Edimburgo, após regressarem do Afeganistão, onde serviram como soldados. A readaptação ao antigo lar, os relacionamentos com seus pais, irmãos e pares – bem como a brusca mudança ambiental, são os grandes desafios na vida dos dois.

Ao contrário do que imaginava, a carga dramática aqui desvia-se de momentos gratuitos de catarse emocional e se rende à descontração e a leveza, o que faz do longa uma inesperada surpresa. Alternando as filmagens entre estúdio e as ruas, pubs e praças da capital escocesa, Fletcher investiu na espontaneidade do momento. Até mesmo a falta de traquejo interpretativo dos jovens protagonistas, traídos em alguns instantes pela timidez, conferiu naturalidade ao material. Em suma, o roteiro de autoria de Stephen Greenhorn é pulsante, e aposta em dilemas comuns do cotidiano: decepções amorosas, inquietudes profissionais, laços familiares postos à prova… A propósito, o casamento entre o enredo e os momentos musicais, o que poderia levar tudo a perder, é tratado com cuidado, e a inserção dos números é fluída, surgindo coerentemente na narrativa. Destaque para a apresentação de 500 miles, maior sucesso dos The Proclaimers e brilhantemente executada na tela,  mesmo afetada pela pouca ousadia do cineasta a não explorar os detalhes dos movimentos, mesmo mal cometido por  Adam Shankman em Hairspray.

Encabeçada por quatro promissores atores (Antonia Thomas e Freya Mavor são os interesses amorosos da dupla de ex-combatentes), a trama ainda ganha credibilidade com a presença dos veteranos Peter Mullan e Jane Horrocks que interpretam um casal que às vésperas de completar 25 anos de união é surpreendido por um segredo do passado.

Mesmo sem ter a intenção de criar a roda, Dexter Flecther conseguiu produzir uma preciosidade, embalado pela sutileza do acaso. Um olhar otimista para as mazelas de uma quase insuportável rotina, retratada com maestria.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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