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julho 26th, 2017

Tarde Demais

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Written by: Flávio Junio
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“Adolescentes enfurecidos invadem escola e portando armas de fogo disparam contra alunos e professores e logo em seguida atentam contra suas próprias vidas”. “Especialistas tentam entender o porquê de jovens de classe média alta, que aparentemente possuem tudo o que sonharam, possam cometer tão barbárie”. “Culpados ou vítimas do que é chamado de desestruturação familiar?”. O conteúdo dessas manchetes têm esporadicamente se tornado pauta de discussões e análises utilizadas para sustentar argumentos que tentam explicar o que a princípio pareça inexplicável. No longa Precisamos Falar sobre Kevin, baseado no livro da autora Lionel Shriver e dirigido pela cineasta Lynne Ramsay – acompanhamos uma escritora que tenta organizar sua vida depois que um fatídico episódio envolvendo seu filho modifica seu cotidiano. Anteriormente, em Graça e Perdão, de Dylan Scharping, o algoz era um personagem maduro, pai exemplar, que certo dia, como de costume, despede-se da esposa rumo ao emprego, entretanto dirige-se para a pequena escola da região — onde arranca a vida de dezenas de estudantes amishes numa cidadezinha do interior americano. Tal qual as duas obras citadas, Tarde Demais, de Shawn Ku, é uma experiência cinematográfica que não visa distribuir responsabilidades ou pesos, diante no caso do estarrecedor crime cometido por um garoto até então acima de qualquer suspeita.

Bill (Michael Sheen) e Kate Carroll (Maria Bello) são os pais exemplares de Sam (Kyle Glallner) que — já alguns meses afastado de casa, reside enclausurado em um quarto dentro da faculdade. Enquanto Bill dedica-se quase que exclusivamente ao trabalho, o passatempo de Kate é escolher qual será o próximo destino da viagem que farão nas férias, além de manter seu jardim impecável (bem próximo ao estilo american way life), e paralelamente sua vida profissional como revisora de textos. Mesmo não assumindo que o casamento desmorona, o casal toca a vida com toda a superficialidade possível – até no modo como trata o filho, naquele que se tornaria o derradeiro contato, há certa dose de frieza e uma amorosidade meio automatizada. Num estranho discurso – o primogênito Cross conversa com os pais e – ainda que estivesse com a voz embargada, não consegue despertar a atenção deles para suas palavras enigmáticas, que denunciam seu desequilíbrio emocional. Na manhã seguinte, os Cross tornam-se alvos de flashes da imprensa, por conta do tiroteio arquitetado por Sam horas antes, que custou a vida de mais de vinte pessoas e concluído por seu autoextermínio. O choque de emoções no pós-trauma e uma série de questionamentos sobre o papel que exerciam como pais fazem parte do martírio que coloca o casal contra a parede.

Terceiro filme do cineasta e coreografo Ku – que também assina o roteiro em parceria com Michael Armbruster., Tarde Demais trilha por um caminho distinto ao que é frequentemente exibido em produções do gênero. Não há cenas do massacre em si, nem da preparação do atirador para o evento, centra-se aqui nas angústias e reflexões dos protagonistas na luta para encontrarem respostas para o ocorrido. Filmando com a câmera na mão, reservando os planos fechados nas cenas onde Sheen e Bello travam fortes discussões – o diretor conseguiu estabelecer uma atmosfera intimista, mas sufocante ao mesmo tempo, a ponto de despertar no espectador sensações claustrofóbicas. Quando deparamos com Bill e Kate dialogando em cômodos da casa bem próximos um do outro, mas destoantes na iluminação (ele na penumbra da sala de estar, ela ao fundo na iluminada cozinha), é possível deduzir que a receptividade daquela tragédia trouxe efeitos distintos para cada um, e — no relacionamento matrimonial, razão e emoção se inverterão. Proposta semelhante foi utilizada por John Cameron Mitchell em Reencontrando a Felicidade. No drama de 2010, Nicole Kidman e Aaron Eckhart tentam retomar a rotina, após a trágica morte do filho em um acidente de carro. As pressões emocionais e a troca de acusações vão tornando aquela relação cada dia mais insustentável. Se na trama de Michell os efeitos das ações recaíam com maior frequência na personagem de Kidman, no longa de Shaw Ku ambos os protagonista ganham igual atenção do roteiro, que atenua as transformações comportamentais sofridas tanto por Bill quanto por Kate, o que evidencia ainda mais o talento da dupla de protagonistas.  Michael Sheen está formidável como o chefe de família que outrora acreditava que conceder toda a comodidade e conforto para seus entes pudesse abonar sua ausência afetiva (um premissa bastante atual) – e que mais tarde descarrega toda a fúria contida durante anos quando confrontado. Maria Bello, por sua vez, alterna entre o papel de protegida e protetora, num desempenho comovente e corajoso, inclusive por aceitar filmar a maior parte das cenas sem maquiagem, reluzindo suas marcas de expressão.

Com as exigências de um mundo moderno, dominado pelo capitalismo e a instantaneidade das informações, é inegável que certas convenções acabam sendo severamente afetadas – principalmente a organização familiar. Perde-se a intimidade, os valores são destruídos e a “recompensa” chega por encomenda, nem que seja em longo prazo — tese levantada por este modesto , mas excelente , drama.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




5 Comments


  1. Outro filme que gira em torno desse tema é “Elephant”, um filme muito bacana! E “Tarde Demais” parece ser interessante, irei procurar assistir. Obrigada pela dica, que aliás, o blog parece ser recheado delas!


  2. Excelente texto!
    Ele, junto com os detalhes sobre as escolhas técnicas do diretor e a presença da competente dupla de atores me deixaram com muita vontade de assistir.


  3. A trama parece com a de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”. Fiquei curiosa para assistir. Vamos ver se é tão forte quanto o filme estrelado pela Tilda Swinton.



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