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dezembro 13th, 2018

Terra de Minas

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Written by: Flávio Junio
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Há 71 anos do término da Segunda Guerra Mundial, Hollywood e outros pólos cinematográficos já apresentaram uma série de produções que possuíam o histórico evento como centro de suas tramas ou como recorrente pano de fundo. De épicos como A Ponte do Rio Kwai, de David Lean, A Lista de Shindler e O Resgate do Soldado Ryan, os dois de Steven Spielberg, até desastres como o pretensioso Pearl Harbor, dirigido por Michael Bay — na maior parte deles o conflito militar foi retratado em sentido unilateral. As atrocidades cometidas pelas tropas inimigas, com o partido nazista, liderado por Hitler, procurando estabelecer domínio por onde passava, assassinando forças contrárias à sua  ideologia. Raramente esse viés era rompido. Das poucas exceções,  A Queda: As Últimas Horas de Hitler, com Oliver Hirschbiegel apresentando o ditador de uma forma mais humanizada, porém nunca sendo condescencente com suas barbáries. O germano dinarmaquês Terra de Minas é outro exemplar que segue por  uma vertente diferenciada, narrando um episódio desconhecido, mas pertinente, ocorrido ao final do conflito.

Em 1945, já no término da Segunda Grande Guerra, um grupo de jovens nazistas é capturado e recrutado para retirar manualmente milhares de minas terrestres espalhadas por praias na Dinamarca. Após ser treinada pelo Tenente Ebbe (Mikkel Følsgaard), a equipe é enviada para o local da missão e passa a ser liderada pelo violento Sargento Carl Rasmussen (Roland Møller) — que os obriga , através de uma intensa rotina, a descavarem mina por mina, com a promessa de liberá-los após o fim da tarefa. Enérgico, o comandante abusa da crueldade a ponto de privar seus novos subalternos de alimentos e descanso — promovendo sequenciais abusos psicológicos somados à periculosidade da ação que devem desempenhar. Um dos argumentos de Rasmussen é que a oposição que representavam durante a Guerra, e os efeitos disso, resultando no extermínio de milhões de pessoas da frente aliada, torna-os personagens cabíveis de punição, um ponto de vista na linha olho por olho. Com o tempo e convivência, o personagem vai se aproximando dos garotos — humanizando-se à medida dos acontecimentos, alguns deles fatídicos. 

O fator preponderante na narrativa do diretor Martin Zandvliet, também o roteirista, e que tornou a obra ousada em sua concepção — foi a habilidade do cineasta de apresentar com lisura o outro lado da moeda, quase nunca esmiuçado na cinematografia. Ocupada pela Alemanha em 1940, a Dinamarca inicialmente assumiu uma posição de neutralidade perante o conflito, aliando-se ao eixo em momentos chaves, entretanto — com a derrocada do partido nazista no país, vários levantes contrários por parte da população surgiram, mesmo com a lei marcial imposta pelos alemães.

O teor revanchista ilustrado por Zandvliet por meio da captura dos outrora opressores, a fim de livrar o solo local de um risco iminente (havia cerca de 4.500 minas escondidas pela costa) ganha mais contornos através dos "diálogos" (se assim podemos chamá-los, uma vez que Rasmussen impositivamente não dava qualquer abertura para questionamentos dos jovens) travados entre os dois lados. Essa estrutura só começa a ruir quando o valente Sebastian (interpretado com surpreendente expressividade por Louis Hofmann) assume a liderança natural do grupo, atuando como um antagonista à altura do comandante.

De certa forma, a premissa do longa assemelha-se à do citado filme de Lean. Em As Pontes do Rio Kwai, prisioneiros britânicos são capturados e obrigados pelos japoneses a construirem uma ponte de transporte ferroviário. Como forma de motivar seus homens, o coronel Nicholson (Alec Guinnes) tenta incentivá-los a se orgulharem da obra concebida por eles. Terra de Minas por sua  vez não possui positivismo em seu enfoque. Presos em um ambiente opressivo e carente de recursos básicos para subsistência, Sebastian; os gêmeos Ernst e Werner ( Emil e Oskar Belton), Wilhelm ( Leon Seidel) e vários outros se agarravam a uma esperança que se esvaía à medida que o tempo transcorria, até mesmo como forma de manterem-se sãos.

De algozes em uma batalha a reféns, cada um dos garotos à sua maneira procurava desviar-se dos fortes impactos do aprisionamento projetando um futuro ilusório — que não seria tão diferente da realidade atual — com a terra natal em pedaços. Orfãos em sua maioria, todos revelavam uma maturidade emocional prematura, até mesmo como mecanismo de autodefesa — que contrastava com um desesperado choro suplicando pela presença de seus genitores — num eficiente paradoxo desenvolvido pelo cineasta.  Expostos a todos os tipos de mazelas, eles compreendiam as circunstâncias que ali os levaram, tal repúdio é frequentemente sinalizado pela vizinha do grupo que não escondia o rancor em relação ao povo alemão — mesmo que tal postura venha a ser derrubada por meio de uma reviravolta pertinente mas abrupta — um dos atos falhos do roteiro. 

Preciso no que se propõe, Terra de Minas foge da conhecida tendência adotada em filmes do gênero, com lados heroíco e o antagônico bem esquematizados, ao trazer à tona um capitulo oculto da história — e revela que as atrocidades cometidas durante um dos mais importantes acontecimentos mundiais não se restringiam às nações favoráveis à doutrina hitlerista — sabendo que ,de fato, nem tudo foi como parece ter sido.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




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