RESENHAS

abril 20th, 2019

Um Doce Olhar

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Written by: Flávio Junio

Entre 1950 a 1970 – ‘Yesilçam’ – a Hollywood turca – produzia cerca de 250 a 350 longas por ano – tendo bons retornos de bilheteria e de crítica e projetando algumas estrelas locais. Com o surgimento de outras mídias , a indústria cinematográfica da Turquia decaiu , o que consequentemente provocou a queda vertiginosa de produção, só tendo uma leve melhora a partir dos anos noventa. De certo que o mundo se voltou efetivamente para o cinema turco , no passado um dos maiores produtores , a partir da década de 2000 , quando os filmes daquele país começaram a ser selecionados para festivais de renome, como Cannes e Toronto.Entre as produções mais aclamadas nos últimos anos estão: Uzak ,Babam ve Oglum e mais recentemente o sensível Bal – que no Brasil ganhou o título Um Doce Olhar.

Dirigido pelo cineasta turco Semih Kaplanoğlu , Um Doce Olhar narra a história de Yusuf , um menino de seis anos que está aprendendo a ler e a escrever e tem o pai apicultor como principal incentivador. De uma família muçulmana , residente de um casebre na região do Mar Morto – o pequeno protagonista só consegue ter um contato mais afetuoso com Yakup – mantendo-se distante dos colegas da escola e até mesmo da mãe , com a qual é mais introvertido. É aquela figura paterna que o impulsiona a lidar com seus medos e dificuldades e a sair da “caverna” na qual ele se encontra e se refugia, levando-o inclusive a conhecer a apicultura. Não a toa que o nome original do longa seja Bal (mel, em turco).

A cumplicidade entre esses dois personagens conduz a platéia para um universo onde as relações familiares perpassam as mazelas cotidianas, exaltando a pureza de uma criança para um mundo não tão belo. Quando o protagonista parte em busca do pai – desaparecido depois de viajar para descobrir porque as abelhas estão sumindo das proximidades, acompanha-se o trajeto do garoto, envoltos por seu silêncio – e atentos para suas reações.

Com uma narrativa com poucos diálogos, Um Doce Olhar , vencedor do Urso de Ouro em Berlim no ano passado – cativa o espectador por se centrar no ingênuo olhar do protagonista diante da vida , sem grandes malabarismos ou fórmulas melodramáticas. Adotou-se aqui a simplicidade. Em cada setor, Semih Kaplanoğlu optou por criar um ambiente natural, favorecendo a narrativa. Não há, por exemplo, uma trilha-sonora incidental ou instrumental, confia-se prioritariamente no que a natureza oferece, para reproduzir o clima que esperava para cada cena , como o barulho das chamas na lareira, reforçando um momento de tensão – ou o de uma árvore balançando os arbustos, na tentativa de destacar a solidão de um personagem dentro de uma floresta. Percebe-se também grande esmero para com a fotografia, trabalho primoroso de Barış Özbiçer – que construiu texturas elegantemente sutis, sendo condizentes com o que está sendo retratado. De igual modo, todos os personagens do filme são expostos cruamente, desprovidos de muletas maniqueístas. Não há intenção de manifestar pena na platéia para com aquela família ou qualquer outro, evidenciando que o roteiro os concebeu para serem parte de uma história comum, mas envolvente – onde Yusuf é o cursor.


Na verdade, grande parte do elenco adulto é totalmente secundário. Diga-se de passagem , que a relação do menino com o professor é distante, sem aquela devoção ou admiração como tem por Yakup. A figura do mestre sempre aparece intimidadora quando a cena é dividida por ele e seus alunos, o que Kaplanoğlu destaca bem quando próximo à mesa de Yusuf , a câmera focaliza o professor em pé da cintura para baixo – reforçando sua imagem ameaçadora, alterando no segundo ato – agora sentado , num plano mais próximo das crianças, salientando que o gigante de outrora na verdade é uma figura acolhedora. Essa mudança acompanha o garoto a medida que ele vai ganhando segurança , mesmo que ainda muito dependente do pai.

Com um estilo bem parecido com o iraniano , o cinema turco é a prova de que para se contar uma boa história, nem sempre recursos mirabolantes são necessários – basta apenas saber o que fazer com aquele projeto X ou Y que tem nas mãos. Um Doce Olhar ganha pontos por sua qualidade cinematográfica e acima de tudo por sua autenticidade. Esses fatores já o credencia – com louvor – como superior a muita coisa que Hollywood tem feito ultimamente.

Nota: 10


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




2 Comments


  1. Fabricio Carlos

    como comentei la no grupo, vi algumas pessoas saindo do cinema ainda no primeiro terço do filme. Coloco esse pessoal na tag dos imediatistas de hoje… não tiveram a paciencia para um belo filme…

    vc citou duas coisas q achei foda: o efeitos sonoros, que são muito mais densos e acrescentam varias camadas de entendimento as cenas e a questão da camera, q pelo olhar de Yusulf torna os adultos intimidadores ao foca-los apenas da cintura para baixa e da floresta grande demais (com grandes enquadramento dela)…

    mas afinal, qdo criança tudo não parece maior?


  2. Kamila

    Ainda não tinha ouvido falar neste filme, mas, pelo seu texto, parece ser uma obra interessante demais.



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