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dezembro 12th, 2017

Um Tira Acima da Lei

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Written by: Flávio Junio
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Figuras admiradas e veneradas pela autenticidade,  os anti-heróis do cinema – em maior ou menor escala, sempre ganharam espaço na sétima arte enfrentando a errada convicção de que por desvirtuarem um pouco a imagem tradicional dos clássicos heróis, politicamente corretos e por vezes unidimensionais, cabia-lhes o rótulo de arqui-inimigos. Esta confusão de posições — por parte de um público mais puritano — meio que delimitava até onde tal ou qual personagem não convencional poderia ir — reservando-lhes, com maior frequência, postos secundários. Entretanto, quando acompanhamos  a transição da inicialmente mocinha de Vivian Leigh para sua fase de sede de vingança em O Vento Levou… , a personificação mista de justiça e frieza do Homem sem nome nos westerns estrelados por Clint Eastwood ou mais recentemente o letal, e romântico, Motorista, interpretado por Ryan Gosling em Drive – percebemos a evolução no ponto de vista da sociedade para o caráter moralista e ético que cerca o comportamento humano. Dito isso, soma-se ao extenso número de figuras notáveis e carismáticas, o sarcástico policial Dave Brown (Woody Harrelson) do drama Um Tira acima da Lei (Rampart) de Oren Moverman.

Assumindo uma postura truculenta em suas abordagens policiais, o veterano oficial Brown é cercado por N número de desvirtudes, que poderiam afugentar o mais conservador dos mortais. Racista, bígamo (a ponto de suas duas filhas serem frutos de uma dupla de irmãs) e corrupto, o protagonista é um patrulheiro sanguinário que elimina suas presas com o mesmo prazer com o qual se relaciona sexualmente com suas parceiras e frequenta ambientes do mais baixo grau. Com arrogância se coloca diante dos mais jovens na profissão como se estivesse acima do bem e do mal, ultrapassando qualquer zona limítrofe, algo semelhante ao proposto por Nicolas Winding Refn no citado Drive. Tal qual no drama encabeçado por Ryan Gosling, apenas uma figura consegue agigantar-se perante o anti-herói, Helen (Brie Larson), sua primogênita do relacionamento com Barbara (Cintia Nixon). Inclusive,  entre os melhores momentos do longa estão as cenas onde pai e filha confrontam-se. Sem nenhum armamento pesado, a garota consegue intimidar apenas com um olhar, com um comportamento arredio, mas que timidamente demonstra afetividade. Num movimento decrescente, o roteiro assinado pela dupla Moverman e James Ellroy vai humanizando Dave Brow, mas nunca colocando em risco sua voracidade pelo reacionário. Portanto, se no principio do ato x, onde conferimos com pontual distância um diálogo entre Dave e Brie através das frestas de uma árvore (reforçando o caráter intimista do momento), no ato sequencial seguimos o personagem em sua série de execuções com teor amoral,  o que acarreta em mais um processo contra o policial, sinalizando seu declínio e sua perceptível ausência de sanidade.

Com a participação de um elenco estelar em papeis menores, Oren Moverman entrega uma produção que mesmo não atingindo todos os públicos, encontra acolhida em um grupo mais seleto e admirador de bons trilhers .  Um Tira acima da Lei é o tipo de película onde cada elemento provoca uma inquietude incessante pela ansiedade do porvir,  decorrente do ritmo da narrativa, esta apontando para diversos caminhos, não traindo, entretanto, a proposta original. A competente direção de Moverman , que debutou como diretor com O Mensageiro,  sua primeira parceria com Harrelson e também com Ben Foster (aqui fazendo uma brilhante participação como um ex-general decadente) – resultou num dos melhores filmes do gênero drama policial nos últimos anos. A formidável percepção do cineasta para cada ato foi fundamental. O giro da câmera em 360 graus na reunião entre o policial e seus advogados foi um brilhante recurso para salientar — como num jogo de xadrez — o papel que cada um ali assumia, alternando entre planos mais fechados (para o acuado futuro réu) e abertos (no caso dos defensores). Bem como a fotografia de Bobby Bukowski em um vermelho gritante quando Brown adentrava-se num club erótico  metaforicamente ilustrava seu inferno pessoal.

Sem dúvidas o maior trunfo de Um Tira Acima da lei é a soberba atuação de Woody Harrelson. O ator defende seu personagem com uma fúria que paradoxalmente caminha com uma aparente sensibilidade emocional, que só faz aumentar o carisma do protagonista. Os mesmos olhares frios que fitam suas vítimas, anseiam por piedade de sua família disfuncional.

Com o passar das décadas, certos valores foram sendo trocados por outros, medos superados e como sociedade passos largos foram dados, assim sendo – o galanteador mocinho de outrora, hoje considera uma 38 como amante e a incólume heroína do passado é muito mais que revolucionária. O longa de Oren Moverman é simplesmente mais um desses bons, e saborosos, aperitivos de ousadia.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




4 Comments


  1. Gilvan

    Oi, Flávio! Eu gosto do Woody Harrelson e acho bom que ele tenha se dado bem nesse filme de 2011. Apesar de suas boas interpretações em Onde os Fracos Não Têm Vez, 2012 e Jogos Vorazes, entre outros, estava com a impressão de que ele estava relegado aos papéis secundários. Vou conferir esse filme. Abraços.


  2. Não conhecia esse filme, mas adoro o gênero. Tentarei conferir, Flavio.



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