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novembro 19th, 2017

Vulcão

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Written by: Flávio Junio
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Há fortes similitudes entre Vulcão (Eldfjall, no original),longa islandês dirigido por Rúnar Rúnarsson, e o premiado Amour, de Michael Haneke, que conquistou neste ano a maioria das honrarias dedicadas a produções estrangeiras em Hollywood. Tanto o filme de Rúnarsson quanto a história de amor na idade madura estrelada por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, são liderados por um elenco de veteranos inseridos em tramas de alta voltagem que – guardadas as devidas proporções – se assemelham a ponto de ser possível suspeitar que Haneke tenha se inspirado na produção de 2011 para — após um interregno de três anos, retornar ao cinema com a belíssima história do casal Laurent.

Em Vulcão, somos apresentados a Hannes (Theodór Júlíudsson), um sexagenário recém-aposentado como zelador de uma escola, que é obrigado a lidar com a ociosidade somada a péssima convivência estabelecida com a mulher Anna (Margrét Helga Jóhannsdóttir) e o casal de filhos já adultos. Ausente em grande parte da criação de Ari (Porsteinn Bachmann) e Telma (Elma Lisa Gunnarsdóttir), o veterano constantemente age com rispidez, censurando a esposa em atos mais banais como a escolha de determinados ingredientes para uma sopa, ou menosprezando a recente promoção da filha a um cargo de maior responsabilidade no emprego. Assim sendo, a socialização com o pai torna-se um martírio para os irmãos, e muito a contra gosto se dá unicamente pela mãe. A personalidade vulcânica do patriarca, sempre prestes a entrar em erupção, torna os momentos ditos familiares palcos de fortes desavenças e acusações. É no mar — que cincunda a ilha em que reside —  onde Hannes, a bordo de seu inseparável barco, encontra uma válvula de escape para suas frustrações e a fúria contida que o fez construir uma espécie de barreira emocional, que de fato acaba servindo como uma forma de proteção. Após escapar ileso de um acidente marítimo, o personagem começa a sofrer certas alterações; revelando uma humanidade mais do que oportuna, pois no ato sequencial sua devotada (agora não tão desprezada) parceira é acometida por um quase fatal derrame, que a deixa imóvel. Responsável pelos cuidados de Anna, Hannes vai se transformando à medida que seu amor por toda a vida vegeta no quarto em que dias atrás despertaram seus instintos carnais (numa encantadora cena repleta de sensualidade), adormecidos há muito pela monotonia.

Rúnar Rúnarsson, também responsável pelo roteiro, conduz com maestria essa trama que ao contrário da produção de Michael Haneke não é tão celebrativa. O cineasta optou por um tom mais cru, frio, e menos otimista que o adotado pelo filme austríaco. A tristeza que cerca Hannes e sua família dá a deixa para que as peças do tabuleiro (fotografia, direção de arte, sonorização…) tivessem perfeita harmonia e se encaixassem brilhantemente. Além disso, há em Vulcão a preocupação com determinadas amarras do roteiro que poderiam resultar em maniqueísmos bem peculiares a produções norte-americanas. Em tempo, apesar de ilustrar através de seus personagens uma série de sentimentos nada ascéticos, o desfecho da história acaba sendo compatível com o espírito meditativo proposto pelo diretor. Seria injusto não destacar ainda o soberbo desempenho de Theodór Júliússon, sem exageros a maior potência da produção.  Júliússon vai do cruel ao afável sem nada dizer, os olhares do personagem se tornam o guia do público que tenta compreender a natureza daquele homem que com o passar do tempo demonstra uma impressionante desenvoltura em situações às quais ainda lhe eram desconhecidas. A fúria de outrora se dissipa, cede lugar a um ser mais receptivo, mas essa mudança não ocorre de forma abrupta ou superficial.

Intimista e intenso , Vulcão é  mais uma amostra do que há de melhor na  cinematografia norte-europeia. Uma história tocante que aborda a velhice com sinceridade e sensatez.


About the Author

Flávio Junio
Flávio Junio é bacharel em Teologia, professor e profissional da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Ex-aluno do curso Teologia, Crítica e Linguagem Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, há doze anos integra o coral gospel Kerygma da Igreja Batista da Lagoinha.




2 Comments


  1. Realmente muitas similaridades entre Vulcão e Amour, fiquei sabendo deste depois de ver o de Haneke, gosto quando abordam a velhice nos longas. Tenho um forte apreço por tudo que venha da Islândia, e esse é um belo exemplo das coisas boas vindas de lá. Irei assistir o mais breve. Seu site é ótimo!



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